Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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agora que é agosto

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agora que é agosto

e nós já sentimos

sono e sede

fome e angústia

agora que seguimos

vivas neste país

a febre dos trópicos

o inverno da guerra

 

agora que o ano

já escorregou em

definitivo para o

lado do fim

eu coloco meu corpo

voltado cada vez mais

ao sul do mundo

e aceno com os

braços cansados

enquanto sussurro

boas-vindas

 

ela vem

para me lembrar

que dor é matéria

de pegar

com as mãos

para me lembrar que

dor se contém

que dor também se

trança

igual cabelo

 

 

 

De língua pele áspera (7Letras, 2019)

gravação
Francisco Mallmann
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca