Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta

[Dispunha às vezes como um mapa]

Partilhar

Dispunha às vezes como um mapa sobre a mesa

como um nome próprio

a tristeza

 

Lembrava a rapariga tão magra

que os pensamentos lhe apareciam à flor da pele

Tão magra que sem táctica não podia

florescer

 

Salientemente bela

como osso saindo da carne

ou pássaro largando a árvore

 

A rapariga conduzia pela noite

os pulsos quebrados decalcavam as estradas

a nova geologia do verbo

que um homem ao vento transfigurou

 

Onde já não respirava a rapariga

havia liso e incontuso o mapa

veias azuis como os trilhos frescos

onde os cavalos preferem morrer

 

 

 

De Alegria para o fim do Mundo (Porto Editora, 2020)

 

data de publicação
09.05.2022
GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca