Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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A mulher subia as escadas, o rosto alheio

da chuva que a trazia aos patamares

A muito custo a mulher sustinha o rosto

enquanto subia até mim, que a esperava à porta de casa

com a minha mãe lá dentro perguntando-me

o que havia dentro da minha doença que tanto

tisnava as frontes de quem me ouvisse

cantar

A mulher pousava os calcanhares

no chão como uma estranha chuva

e desfigurava o rosto como se o desfocassem

muitas distâncias, um fôlego

suspenso no vidro

O rosto da mulher

era como morrer diante de qualquer paisagem, paciente

revelação

De dentro da casa, a tarde lenta e ressoada,

de dentro do tisno lento da minha carne sem dom

a minha mãe, desfeita de Deus e do pudor,

perguntava:

É isto um poeta?

 

 

 

De Alegria para o fim do Mundo (2020, Porto Editora)

 

 

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca