Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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Estou entre a idade de Cristo

e a idade com que Simone Weil morreu.

Tendo, como eles, a ampliar fenómenos,

os mitos ou o próprio mar encabeçado por um touro,

a minha roupa ao fim de um dia de uso

arrastando a areia de um qualquer abismo.

Mas se resisto às tentações é porque não as sinto.

Não as conto entre os tentáculos do dia,

a registadora máquina, a trituradora de papel.

Seriam anestésico de prazos ou da dor ciática –

logo eu que acredito em anjos, suas asas

de veludo esconjurado pelo vinho, logo eu

que não separo o coração da violência

couraçada de um tambor, não sinto.

 

O pecado, o fogo astral, a aliança entre vizinhos –

nada disto em mim figura, nenhum gatilho primordial.

Gostaria de ingressar nesse negro domínio, o entreunhas,

a carne grega, romana ou raiana dos homens,

o lugarejo, o sofisma

que colora à nascença e destrói o amor.

 

Quase-trinta-e-quatro, corpo-luva em ecléctico quarto,

e não sinto.

 

A baia espúria da fé tanto não cobre

as frias veias da razão como aparta

a visão do esterco, o sono fixo

de cavalos, operários ou amantes.

 

 

De Alegria para o fim do Mundo (2020, Porto Editora)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca