Poemas de Bibe – 16.º

Actuação escrita

 

 

 

 

Pode-se escrever

 

Pode-se escrever sem ortografia

Pode-se escrever sem sintaxe

Pode-se escrever sem português

Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua

Pode-se escrever sem saber escrever

Pode-se pegar na caneta sem haver escrita

Pode-se pegar na escrita sem haver caneta

Pode-se pegar na caneta sem haver caneta

Pode-se escrever sem caneta

Pode-se sem caneta escrever caneta

Pode-se sem escrever escrever plume

Pode-se escrever sem escrever

Pode-se escrever sem sabermos nada

Pode-se escrever nada sem sabermos

Pode-se escrever sabermos sem nada

Pode-se escrever nada

Pode-se escrever com nada

Pode-se escrever sem nada

 

Pode-se não escrever

 

 

 

 

Pedro Oom

In Actuação escrita (Lisboa, &Etc., 1980)

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Eu tinha grandes naus

aparelhadas na ribeira do coração.

– Fernando Assis Pacheco

 

 

 

Um desejo tão espúrio, escrever,

quando a monte tem andado tudo.

Nada do que importa está escrito, só repousa

a intensa sombra dos seus olhos

entre o seco arvoredo dos signos.

É tão estranho viver, tão roubado

às flores, ao sono, ao vinho, quanto mais

esta vaidade do que nunca teve brilho

mas empluma a linguagem

pelas falhas do que outros dizem.

 

Tinha passado anos a talhar madeira

alumbrada e rosa, quase viva, enquanto

no rosto a ilusória imobilidade

do fogo me dava a impressão de existir.

Sabia como recrudesce o tempo

em redor dos materiais — cada hora

uma navalha suja, cada imagem

uma jóia deletéria, o mar

lavrando pelas ondas a sua cicatriz.

 

Quis sofrer o mel, metáforas ocultas,

espécies rebentando-me por dentro

com os seus anzóis extintos. Nada mais

cretino, já que à vista começava a apodrecer

a infância, os frascos a estalar, a carne

rigorosa, uma arca desfalcada por invernos

e famílias vagamente nucleares.

E eu não via, eu queria estar à sombra e escrever

mulheres no esquema dos meus dias,

mulheres cujo coração se abate, o meu

estético sentido era o terror. Eu via e não via,

e de livros e mulheres só queria

erguê-los como grandes naus

 

e escrevia. Escrevo ainda,

qual aranha com as patas na penumbra.

Escrevo as coisas que das mãos

me caem, rachadas e celestiais.

De óculos escuros, dou-lhes o veludo

do outono, ou da fé o roxo manto.

Faço grandes passeios a pulso. De resto,

ando a monte como tem andado tudo.

 

 

 

inédito

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca