Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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as palavras têm seu peso

 

quando dizemos amor

a palavra levita como uma pena

no regaço de uma brisa de Verão

quando dizemos ódio

a palavra cai na terra e levanta pó

é como uma pedra

arremessada sem perdão

 

mas se dissermos silêncio

quem por nós erguerá tamanho peso?

é palavra tão sem medida

que mil braços humanos não chegariam

para levantá-la um milímetro que fosse

desse chão onde o ódio nos espatifa

 

queria uma grua que levantasse o silêncio

à altura do nosso amor

para que daqui onde me encontro

pudesse continuar a olhar-te

à distância de um sonho

onde fosse autêntico como um punhal

cada vocábulo deste triste quadro

os teus lábios são um navio de esperança

a minha boca um porto de abrigo

e à deriva andamos ambos na ausência um do outro

enquanto reclamamos

de ser tudo como dantes:

tão indolente que parece quase morto

tão indolente que parece quase morto

 

 

 

De A Grua (2017, volta d’mar)

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca