Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta
Partilhar

as palavras têm seu peso

 

quando dizemos amor

a palavra levita como uma pena

no regaço de uma brisa de Verão

quando dizemos ódio

a palavra cai na terra e levanta pó

é como uma pedra

arremessada sem perdão

 

mas se dissermos silêncio

quem por nós erguerá tamanho peso?

é palavra tão sem medida

que mil braços humanos não chegariam

para levantá-la um milímetro que fosse

desse chão onde o ódio nos espatifa

 

queria uma grua que levantasse o silêncio

à altura do nosso amor

para que daqui onde me encontro

pudesse continuar a olhar-te

à distância de um sonho

onde fosse autêntico como um punhal

cada vocábulo deste triste quadro

os teus lábios são um navio de esperança

a minha boca um porto de abrigo

e à deriva andamos ambos na ausência um do outro

enquanto reclamamos

de ser tudo como dantes:

tão indolente que parece quase morto

tão indolente que parece quase morto

 

 

 

De A Grua (2017, volta d’mar)

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca