Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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Stefan Zweig a Charlotte Altmann

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O mundo não merece a nossa dor,

o mundo cheira mal, tem bolor,

o mundo coxeia como um cavalo morto,

nasceu direito, pôs-se torto,

e anda às contracurvas em auto-estrada

este mundo que não nos serve para nada,

o mundo nasce debaixo do céu

e põe-se atrás do mar,

é um homenzinho de chumbo

contra o qual apetece disparar

as balas da nossa raiva,

as penas do nosso riso,

os dentes da fome que nos mastiga o siso,

o mundo é uma coisa aderente

que se cola às solas dos sapatos

e que nos põe doentes,

a tresandar dos sovacos,

o mundo é um emprego remunerado com a morte

que apenas conforta a vida

quando à sorte cabe um amor

que não sare como uma ferida vulgar.

 

 

 

De A Dança das Feridas (2011, edição do autor)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca