Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Abriu um dicionário e começou a sublinhar as mais belas palavras. Não lhe importavam os significados, listava-as pelo som que produziam. Encarava a enciclopédia como um jardim, as palavras seriam as flores e os sons representariam fragrâncias. Pretendia uma lista que o elevasse na direcção do céu. Chegado a meio da letra “S”, deparou-se com a palavra “silêncio”. Era uma palavra sem cheiro, mas tão ou mais bonita que todas as outras palavras. Por ali ficou, pensando que, se o deserto é o mais belo dos jardins, o silêncio pode ser a mais bela das palavras.

 

 

 

De Micróbios (2021, Abysmo)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca