reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta

32 maneiras de dizer aqui

Partilhar

«Manhã muito cedo, ainda escuro lá fora, leio na Folha de São Paulo que um grupo de linguistas tenta evitar o desaparecimento definitivo do kawésqar, um idioma falado por apenas oito pessoas. […] Este nosso idioma curto-circuitado por dominadoras falas e línguas imperiais já não tem, contudo, o apego fundo à geografia que marca a difícil sobrevivência dos kawésqar, os nómadas que tanto se aventuraram em suas canoas pelo estreito de Magalhães. A notícia conta que, nessa demanda, nessa deriva, eles tinham 32 maneiras de dizer “aqui”.»

 

Fernando Alves em Sinais

 

 

 

 

Aqui é o mar nos meus olhos vegetais, cumprindo preces, uma casa em ruínas.

Aqui é um compasso de deuses apagados nas quatro cordas do violino.

Aqui é a conjugação de inventários no mundo, pretérito menos que perfeito.

Aqui é a bétula, o choupo, o salgueiro e todas as árvores ripícolas que não impediram Ofélia.

Aqui é um poço muito fundo, muito negro, muito mudo, salva-se a nuvem branca que o trespassa.

Aqui é a sombra que paira, que se demora, que se derrama dilatada sobre os pulsos.

Aqui é a luz que enfuna a alva nuvem até ao crepúsculo do meu regaço.

Aqui é um pássaro como um segredo, quase intocável a haste da duna e ainda um pássaro kawésqar nas margens ventosas dos canais do Golfo das Penas.

Aqui é um idioma que só oito pessoas do mundo falam e o idioma que finjo inventar para te dizer que há lugares assim, tão longínquos, que podíamos ser os dois os seus únicos falantes.

Aqui é tão só uma janela abandonada, vidros foscos, propósitos perdidos.

Aqui é uma varanda de jardins suspensos onde agora perdura o aroma cálido da madressilva.

Aqui ainda é Abril, quase Maio, como se houvesse um alpendre de Hopper à minha espera.

Aqui é a véspera sonâmbula de cada uma das vezes que senti que podia haver um travo, um trevo de promessa.

Aqui é o canto do livro que desdobro para deixar intacta essa mancha que é a esperança.

Aqui é o silêncio invisível, a penumbra das asas das borboletas.

Aqui é a perfeita imperfeição, o lugar mais do que comum, a rasura que não apago.

Aqui é a medida dos dias, o colapsar das noites, a vertente interrompida das horas.

Aqui é um relógio de sol, uma ampulheta de areia, uma clepsidra de naufrágios.

Aqui é a impressão digital da melancolia, subtraídas todas as metáforas.

Aqui é uma dança, a minha mão direita a querer-te quebrado pela cintura.

Aqui é a vertigem que vacila, no espelho Fausto sem os seus demónios escava relâmpagos.

Aqui é a súbita ternura de apagar o fogo para que seja «apenas um pouco tarde».

Aqui é a morte já acontecida, não há um amor para nomear na orla possível do poema.

Aqui é a solidão partindo de si própria, sem que o arrependimento matasse.

Aqui é o ofício do monólogo, ainda que as vozes falantes sejam oito.

Aqui é a névoa que se dissipa, revelando a orografia do medo e do milagre.

Aqui é o efeito, o fruto e a desobediência.

Aqui é a mão que não se perdeu em cada despedida.

Aqui é o coração sobrante, quase na última linha.

Aqui é a realidade como um vestígio.

Aqui é o que os outros dirão, no seu idioma, sobre este lugar.

Aqui acontece o infinito e o seu contrário.

 

 

 

 

Inédito

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca