Ilha dos Poetas Vivos

Estátuas
Neste país as estátuas desdenham alturas.
Traficam na praça, devassam estradas
Têm mãos pensativas e barro na planta dos pés.

Conceição Lima

 

 

No Dipanda escutamos vozes de poetas africanos nascidos depois de 1975. Neste episódio o palco é do coletivo Ilha dos Poeta Vivos, amantes da arte de dizer, musicar, dramatizar e cantar poesia. Conheci-os em junho na ilha de São Tomé, no contexto da Bienal de Artes e do Roça Língua. Os poetas Marty Pereira, Remy Diogo, Janaína Conceição, Raquel Lima e MILTONeladas abrem-nos o mundo desde a ilha onde vivem. Quando os poemas foram gravados, o grupo preparava A Caixa, uma performance poética que ambicionava ativar caminhos de libertação, “segredos clandestinos, verdades proféticas e viagens ancestrais”. Também nas suas palavras, pretendiam pensar fora da caixa e romper com paradigmas coloniais encaixotados. Uma libertação individual e coletiva que identifica as muitas caixas destruídas ao longo da história.

O que fazer depois da redescoberta de nós?, era o que os poetas indagavam, ali, naquelas terras do golfo da Guiné.

 

Marta Lança

 

 

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32 maneiras de dizer aqui

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«Manhã muito cedo, ainda escuro lá fora, leio na Folha de São Paulo que um grupo de linguistas tenta evitar o desaparecimento definitivo do kawésqar, um idioma falado por apenas oito pessoas. […] Este nosso idioma curto-circuitado por dominadoras falas e línguas imperiais já não tem, contudo, o apego fundo à geografia que marca a difícil sobrevivência dos kawésqar, os nómadas que tanto se aventuraram em suas canoas pelo estreito de Magalhães. A notícia conta que, nessa demanda, nessa deriva, eles tinham 32 maneiras de dizer “aqui”.»

 

Fernando Alves em Sinais

 

 

 

 

Aqui é o mar nos meus olhos vegetais, cumprindo preces, uma casa em ruínas.

Aqui é um compasso de deuses apagados nas quatro cordas do violino.

Aqui é a conjugação de inventários no mundo, pretérito menos que perfeito.

Aqui é a bétula, o choupo, o salgueiro e todas as árvores ripícolas que não impediram Ofélia.

Aqui é um poço muito fundo, muito negro, muito mudo, salva-se a nuvem branca que o trespassa.

Aqui é a sombra que paira, que se demora, que se derrama dilatada sobre os pulsos.

Aqui é a luz que enfuna a alva nuvem até ao crepúsculo do meu regaço.

Aqui é um pássaro como um segredo, quase intocável a haste da duna e ainda um pássaro kawésqar nas margens ventosas dos canais do Golfo das Penas.

Aqui é um idioma que só oito pessoas do mundo falam e o idioma que finjo inventar para te dizer que há lugares assim, tão longínquos, que podíamos ser os dois os seus únicos falantes.

Aqui é tão só uma janela abandonada, vidros foscos, propósitos perdidos.

Aqui é uma varanda de jardins suspensos onde agora perdura o aroma cálido da madressilva.

Aqui ainda é Abril, quase Maio, como se houvesse um alpendre de Hopper à minha espera.

Aqui é a véspera sonâmbula de cada uma das vezes que senti que podia haver um travo, um trevo de promessa.

Aqui é o canto do livro que desdobro para deixar intacta essa mancha que é a esperança.

Aqui é o silêncio invisível, a penumbra das asas das borboletas.

Aqui é a perfeita imperfeição, o lugar mais do que comum, a rasura que não apago.

Aqui é a medida dos dias, o colapsar das noites, a vertente interrompida das horas.

Aqui é um relógio de sol, uma ampulheta de areia, uma clepsidra de naufrágios.

Aqui é a impressão digital da melancolia, subtraídas todas as metáforas.

Aqui é uma dança, a minha mão direita a querer-te quebrado pela cintura.

Aqui é a vertigem que vacila, no espelho Fausto sem os seus demónios escava relâmpagos.

Aqui é a súbita ternura de apagar o fogo para que seja «apenas um pouco tarde».

Aqui é a morte já acontecida, não há um amor para nomear na orla possível do poema.

Aqui é a solidão partindo de si própria, sem que o arrependimento matasse.

Aqui é o ofício do monólogo, ainda que as vozes falantes sejam oito.

Aqui é a névoa que se dissipa, revelando a orografia do medo e do milagre.

Aqui é o efeito, o fruto e a desobediência.

Aqui é a mão que não se perdeu em cada despedida.

Aqui é o coração sobrante, quase na última linha.

Aqui é a realidade como um vestígio.

Aqui é o que os outros dirão, no seu idioma, sobre este lugar.

Aqui acontece o infinito e o seu contrário.

 

 

 

 

Inédito

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca