Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Cinco poemas para Monsaraz

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2.

Ainda não é o fim

nem o princípio do mundo

Calma

É apenas um pouco tarde

 

Manuel António Pina

 

 

 

Continua a ser apenas um pouco tarde e,

tão longe do mar como de outras balaustradas,

deixo que o sol incendeie estes versos e o meu corpo

sinta os efeitos meteorológicos do Sul. Toco as

sombras ainda cálidas que escorrem pelas pedras

do casario como se pudesse acender, do lado de

dentro, a floração da penumbra nas tuas mãos.

Os meus ombros nus, tingidos pelas nuvens que

entardecem, são ainda os de Alandra e eu acredito,

enquanto escrevo e estremeço, que o aroma dos

aloendros é a única túnica que me cobre revelando

o que de mais puro se desprende do meu coração:

uma promessa de amor sem sílabas, sem um beijo,

como resgate de todos os verbos que preferiste

deixar apenas rente aos lábios. Não te falo dos meus

cabelos – eles esvoaçam e dançam, dobados pelo

vento. São o meu desejo, um naufrágio sem mar

por perto. Volúpia lenta e silenciosa. Volúvel

e profunda contradição.

 

 

 

De Manual da vida breve. Poesia reunida (2003-2021)

(2021, Officium Lectionis Edições)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca