reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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Cinco poemas para Monsaraz

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2.

Ainda não é o fim

nem o princípio do mundo

Calma

É apenas um pouco tarde

 

Manuel António Pina

 

 

 

Continua a ser apenas um pouco tarde e,

tão longe do mar como de outras balaustradas,

deixo que o sol incendeie estes versos e o meu corpo

sinta os efeitos meteorológicos do Sul. Toco as

sombras ainda cálidas que escorrem pelas pedras

do casario como se pudesse acender, do lado de

dentro, a floração da penumbra nas tuas mãos.

Os meus ombros nus, tingidos pelas nuvens que

entardecem, são ainda os de Alandra e eu acredito,

enquanto escrevo e estremeço, que o aroma dos

aloendros é a única túnica que me cobre revelando

o que de mais puro se desprende do meu coração:

uma promessa de amor sem sílabas, sem um beijo,

como resgate de todos os verbos que preferiste

deixar apenas rente aos lábios. Não te falo dos meus

cabelos – eles esvoaçam e dançam, dobados pelo

vento. São o meu desejo, um naufrágio sem mar

por perto. Volúpia lenta e silenciosa. Volúvel

e profunda contradição.

 

 

 

De Manual da vida breve. Poesia reunida (2003-2021)

(2021, Officium Lectionis Edições)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca