Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Primeiras vontades

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Nomes de árvores, de pássaros e de flores.

 

Trazer o nome de uma árvore na ponta

de cada dedo e assim saiba dizer da próxima

vez que uma bétula é, afinal, um vidoeiro

e que as barcaças na lagoa, entre jacintos-de-água,

estão ali ancoradas no que resta das sombras

invisíveis das suas folhas caducas e que haverá

sempre um pássaro por perto, garça, pisco de

peito ruivo, falcão peregrino, para que cada ave

permaneça, em mim, para a posteridade.

 

Inventários e enumerações poéticas.

 

Detectar as pedras dentro da poesia e da pedra

extrair tudo o que dela se possa fazer: areia,

vidro, mágoa, calçada, casa, ponte, morte,

arco botante, coluna, vértebra de estátua, pó,

sulco na água, água no cântaro, fogo, muros

cercados, túmulos e lápides, gruta, precipício,

ilha, lava, cometas, altar de presságios, amor

desabitado, imitação, margem, ruínas, tempo,

o naufrágio da noite acesa a luz do farol.

 

Vésperas, varandas e vigílias.

 

Abrir as gavetas e as janelas, não esquecer

o mar no horizonte, o mar no passadiço,

o mar como o nevoeiro na minha voz.

Esperar o degrau que me chama, o coração

depois de vazio, as trevas que clareiam

lentamente. Descalça, sempre descalça,

encontrar um entardecer para me despedir.

 

Que este seja o último poema

que não te escrevo.

 

 

 

De Manual da vida breve. Poesia reunida (2003-2021)

(2021, Officium Lectionis Edições)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca