reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta

Primeiras vontades

Partilhar

Nomes de árvores, de pássaros e de flores.

 

Trazer o nome de uma árvore na ponta

de cada dedo e assim saiba dizer da próxima

vez que uma bétula é, afinal, um vidoeiro

e que as barcaças na lagoa, entre jacintos-de-água,

estão ali ancoradas no que resta das sombras

invisíveis das suas folhas caducas e que haverá

sempre um pássaro por perto, garça, pisco de

peito ruivo, falcão peregrino, para que cada ave

permaneça, em mim, para a posteridade.

 

Inventários e enumerações poéticas.

 

Detectar as pedras dentro da poesia e da pedra

extrair tudo o que dela se possa fazer: areia,

vidro, mágoa, calçada, casa, ponte, morte,

arco botante, coluna, vértebra de estátua, pó,

sulco na água, água no cântaro, fogo, muros

cercados, túmulos e lápides, gruta, precipício,

ilha, lava, cometas, altar de presságios, amor

desabitado, imitação, margem, ruínas, tempo,

o naufrágio da noite acesa a luz do farol.

 

Vésperas, varandas e vigílias.

 

Abrir as gavetas e as janelas, não esquecer

o mar no horizonte, o mar no passadiço,

o mar como o nevoeiro na minha voz.

Esperar o degrau que me chama, o coração

depois de vazio, as trevas que clareiam

lentamente. Descalça, sempre descalça,

encontrar um entardecer para me despedir.

 

Que este seja o último poema

que não te escrevo.

 

 

 

De Manual da vida breve. Poesia reunida (2003-2021)

(2021, Officium Lectionis Edições)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca