Ilha dos Poetas Vivos

Estátuas
Neste país as estátuas desdenham alturas.
Traficam na praça, devassam estradas
Têm mãos pensativas e barro na planta dos pés.

Conceição Lima

 

 

No Dipanda escutamos vozes de poetas africanos nascidos depois de 1975. Neste episódio o palco é do coletivo Ilha dos Poeta Vivos, amantes da arte de dizer, musicar, dramatizar e cantar poesia. Conheci-os em junho na ilha de São Tomé, no contexto da Bienal de Artes e do Roça Língua. Os poetas Marty Pereira, Remy Diogo, Janaína Conceição, Raquel Lima e MILTONeladas abrem-nos o mundo desde a ilha onde vivem. Quando os poemas foram gravados, o grupo preparava A Caixa, uma performance poética que ambicionava ativar caminhos de libertação, “segredos clandestinos, verdades proféticas e viagens ancestrais”. Também nas suas palavras, pretendiam pensar fora da caixa e romper com paradigmas coloniais encaixotados. Uma libertação individual e coletiva que identifica as muitas caixas destruídas ao longo da história.

O que fazer depois da redescoberta de nós?, era o que os poetas indagavam, ali, naquelas terras do golfo da Guiné.

 

Marta Lança

 

 

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Nuvens dispersas

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Tenho as mãos geladas, mas escrevo-te que é

Agosto. Junto ao mar, o dia amanhece sem neblinas,

com nuvens dispersas que se alinham de forma

perpendicular ao vento por efeito da orografia,

tal a vertigem que acrescento à paisagem, e essa

é a única condição que estipulo ao poema: que haja

nuvens onde te possas pendurar como tábua de

salvação para que quando colocares os pés na

terra os teus olhos continuem rasos de horizonte.

 

É Agosto e escrevo-te que o dia se desdobra

em calor como tu gostas e eu não aprecio. A

visibilidade é total mesmo quando o sol, dispersas

as nuvens, ofusca todas as palavras e só o silêncio

emerge como a única expressão que te interrompe

o olhar. Essa é a tensão da luz a revelar segredos e

mistérios, quando pássaros inesperados surgem

nos sulcos da escrita, na minha ou na tua pelo

menos um de nós saberá.

 

Escrevo-te que é Agosto e afinal já estou descalça,

como sempre deveria estar. A noite aproxima-se,

vagarosa, incessante, como um estado de expiação.

Surge tingida de outras nuvens que se dispersam

e lá vais tu, agarrado ao abandono que só essas

sombras te deixam ter. Num desses dias de Agosto,

talvez te toque sem que te prenda, e então ficará

concluído quase tudo o que intimamente hoje te

tinha a declarar.

 

 

De Boletim Meteorológico (2020, volta d’mar)

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca