reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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Nuvens dispersas

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Tenho as mãos geladas, mas escrevo-te que é

Agosto. Junto ao mar, o dia amanhece sem neblinas,

com nuvens dispersas que se alinham de forma

perpendicular ao vento por efeito da orografia,

tal a vertigem que acrescento à paisagem, e essa

é a única condição que estipulo ao poema: que haja

nuvens onde te possas pendurar como tábua de

salvação para que quando colocares os pés na

terra os teus olhos continuem rasos de horizonte.

 

É Agosto e escrevo-te que o dia se desdobra

em calor como tu gostas e eu não aprecio. A

visibilidade é total mesmo quando o sol, dispersas

as nuvens, ofusca todas as palavras e só o silêncio

emerge como a única expressão que te interrompe

o olhar. Essa é a tensão da luz a revelar segredos e

mistérios, quando pássaros inesperados surgem

nos sulcos da escrita, na minha ou na tua pelo

menos um de nós saberá.

 

Escrevo-te que é Agosto e afinal já estou descalça,

como sempre deveria estar. A noite aproxima-se,

vagarosa, incessante, como um estado de expiação.

Surge tingida de outras nuvens que se dispersam

e lá vais tu, agarrado ao abandono que só essas

sombras te deixam ter. Num desses dias de Agosto,

talvez te toque sem que te prenda, e então ficará

concluído quase tudo o que intimamente hoje te

tinha a declarar.

 

 

De Boletim Meteorológico (2020, volta d’mar)

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca