Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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 pra Sergio Maciel

 

de uma língua morta nasceu o

nome da tua república

que um século depois

eu chamo de país imberbe

e estranho com nome de rio

 

te repito

 

o passaporte carimbado

infinitas vezes

o mesmo brasão

como se entrasse

again and again num país

de onde nunca saí

 

volto a ti rio caudaloso com

a insolência dos que têm remos

teu nome já difuso entre a língua

crioula e a indizível a que traduzo

que engulo ou cuspo porque já

não posso

 

te engolir

 

volto a outro país que desconheço

ainda que compartilhemos

do mesmo gentílico mas

é outro teu trópico eu equador

tu capricórnio te viajo anotando

barroca e chocada tua flora tuas falésias

 

teus rasgos

 

já nem sei mais para quem é esse

poema se para ti ou a terra natal ou

para o exílio ou a maré

que me separa dos três

não consigo escrevê-lo

porque ainda

que tenha vivido muito

tenho lido pouco

e se fosse o contrário também

não escreveria aliás

qual é a medida

com quanto cuspe a escrita

lubrifica a vida ou seria

o contrário?

 

 

 

De Chifre (Edições Macondo, 2021)

gravação
Adelaide Ivánova, com recurso a voz sintetizada nos poemas "A mulher casada" e "os orgãos inúteis".
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca