reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta
Partilhar

Quebro aqui, menino, este silêncio, que
dez burocráticos anos já dura, evitando até
esta noite memória vazia de doçura,
mas que agora só me impediria de falar

 

contigo. E já que és tão poeta e tão bonito,

reavivo do trauma e do algoz a língua

materna, não porque tenho algo a te dizer

mas porque a carne que lembra também

 

sofre de amnésia. Hoje eu quero desarticular

medo, tristeza e regra, afinar com o meu o

teu desejo, falar putaria na cama naquele

 

idioma que há muito abandonei, pois se a língua

do inimigo é a única que dominas que seja essa

minha vingança: treparei contigo em português.

 

 

 

 

De 13 nudes (Edições Macondo, 2019)

GRAVAÇÃO
Adelaide Ivánova, com recurso a voz sintetizada nos poemas "A mulher casada" e "os orgãos inúteis".
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca