Ilha dos Poetas Vivos

Estátuas
Neste país as estátuas desdenham alturas.
Traficam na praça, devassam estradas
Têm mãos pensativas e barro na planta dos pés.

Conceição Lima

 

 

No Dipanda escutamos vozes de poetas africanos nascidos depois de 1975. Neste episódio o palco é do coletivo Ilha dos Poeta Vivos, amantes da arte de dizer, musicar, dramatizar e cantar poesia. Conheci-os em junho na ilha de São Tomé, no contexto da Bienal de Artes e do Roça Língua. Os poetas Marty Pereira, Remy Diogo, Janaína Conceição, Raquel Lima e MILTONeladas abrem-nos o mundo desde a ilha onde vivem. Quando os poemas foram gravados, o grupo preparava A Caixa, uma performance poética que ambicionava ativar caminhos de libertação, “segredos clandestinos, verdades proféticas e viagens ancestrais”. Também nas suas palavras, pretendiam pensar fora da caixa e romper com paradigmas coloniais encaixotados. Uma libertação individual e coletiva que identifica as muitas caixas destruídas ao longo da história.

O que fazer depois da redescoberta de nós?, era o que os poetas indagavam, ali, naquelas terras do golfo da Guiné.

 

Marta Lança

 

 

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passei a maior vergonha

no dia que tu viesse me buscar

usando uma camiseta

rosa-choque

tu só usa preto

e eu sempre reclamo

digo “aff lukas que tédio”

e eu adoro rosa-choque

a cor o nome

não sei o que deu em mim

certeza que não foi inveja

foi outra coisa mais feia

olhei pra tu e disse

“oxe que cor é essa menino?”
e tu

oito anos mais novo

millenial

anos-luz à frente

dissesse

“qual o problema? só quem pode usar rosa é tu?”
e eu não soube responder

porque de fato

não há problema

algum

cores são uma invenção
e não têm dono
“pertencem à vida”
(não foi eu quem disse, foi goethe)

 

 

 

De 13 nudes (Edições Macondo, 2019)

gravação
Adelaide Ivánova, com recurso a voz sintetizada nos poemas "A mulher casada" e "os orgãos inúteis".
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca