reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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passei a maior vergonha

no dia que tu viesse me buscar

usando uma camiseta

rosa-choque

tu só usa preto

e eu sempre reclamo

digo “aff lukas que tédio”

e eu adoro rosa-choque

a cor o nome

não sei o que deu em mim

certeza que não foi inveja

foi outra coisa mais feia

olhei pra tu e disse

“oxe que cor é essa menino?”
e tu

oito anos mais novo

millenial

anos-luz à frente

dissesse

“qual o problema? só quem pode usar rosa é tu?”
e eu não soube responder

porque de fato

não há problema

algum

cores são uma invenção
e não têm dono
“pertencem à vida”
(não foi eu quem disse, foi goethe)

 

 

 

De 13 nudes (Edições Macondo, 2019)

gravação
Adelaide Ivánova, com recurso a voz sintetizada nos poemas "A mulher casada" e "os orgãos inúteis".
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca