reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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os órgãos inúteis

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o viajante

pede-me pra ficar
pra ficar pra sempre
não levante

desse abrigo diz ele marinheiro

e vidente

avante

 

e eu
doente
sexton
sem sexo
plath
sem palato
woolf
mas não morde
louise
demasiado bourgeois
árvore frígida
em nada arbus
tonsila
plica semilunares
sem orgasmo

não
levantei
orgulhosa que sou
levitei
sofisticada correta morta
cheia de dignidade
nenhuma alegria
sequei os
sucos os
sulcos o
sovaco
acalmei os jurados
mulher
moral
vesícula
ciso, o dente
apêndice
baço.

 

 

 

De o martelo (Douda Correria, 2018)

GRAVAÇÃO
Adelaide Ivánova, com recurso a voz sintetizada nos poemas "A mulher casada" e "os orgãos inúteis".
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca