Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Adelaide Ivánova [compacto]

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Primeiramente, quis reunir sete poemas de amor. Juntei um bocado, de todos os meus livros, e fui gravando, e enquanto ia gravando eu ia me ouvindo, e enquanto eu ia me ouvindo fui percebendo que todo poema de amor é um pouco trágico – ao menos todo poema de amor que eu escrevo. Acabei por ficar com estes sete, que têm em comum o fato de que são um misto de júbilo e de desgraça – que são o tecido mesmo da vida. Continuo acreditando no amor romântico, o mais cafona e antirrealista possível, só não sei escrever sobre ele, ao que parece. Um dia!

 

 

Adelaide Ivánova

gravação
Adelaide Ivánova, com recurso a voz sintetizada nos poemas "A mulher casada" e "os orgãos inúteis".
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca