reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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Adelaide Ivánova [compacto]

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Primeiramente, quis reunir sete poemas de amor. Juntei um bocado, de todos os meus livros, e fui gravando, e enquanto ia gravando eu ia me ouvindo, e enquanto eu ia me ouvindo fui percebendo que todo poema de amor é um pouco trágico – ao menos todo poema de amor que eu escrevo. Acabei por ficar com estes sete, que têm em comum o fato de que são um misto de júbilo e de desgraça – que são o tecido mesmo da vida. Continuo acreditando no amor romântico, o mais cafona e antirrealista possível, só não sei escrever sobre ele, ao que parece. Um dia!

 

 

Adelaide Ivánova

gravação
Adelaide Ivánova, com recurso a voz sintetizada nos poemas "A mulher casada" e "os orgãos inúteis".
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca