Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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A minha sombra faz muros tombar

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A minha sombra faz muros tombar

sem estrondo, é bom que se diga.

A intenção não é causar incómodo,

apenas permitir a entrada do vento,

o mesmo que despenteia as mulheres

que passeiam no descampado

onde um dia alguém com muito tempo

livre para se dedicar ao ofício da construção

de muros resolveu erguer este

que se adiu a outros três, feitos por outrem,

e a um chão nascido da terra e a um tecto

caído do céu. E juntos fizeram casa

sem janela por onde se pudesse ver

as mulheres que passeiam

no descampado, prisão onde não entra

vento que despenteie nem mulheres,

nem crianças, nem ninguém que lá se diga

viver. Até porque além do muro,

dos quatro que, armados de chão e tecto,

se revestiram de bolor e ninhos de vespas

em ausente sussurro, não há vida

nem estrondo. A minha sombra fará tombar

estes muros, como fez tombar outros

– é por isso que existe este descampado,

onde passeiam mulheres despenteadas

pelo vento, onde um dia correrão crianças,

a trazer o estrondo que os muros

tombados pela minha sombra

nunca provocaram.

 

 

de A norte do calendário (2022, Medula)

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca