Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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A minha sombra faz muros tombar

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A minha sombra faz muros tombar

sem estrondo, é bom que se diga.

A intenção não é causar incómodo,

apenas permitir a entrada do vento,

o mesmo que despenteia as mulheres

que passeiam no descampado

onde um dia alguém com muito tempo

livre para se dedicar ao ofício da construção

de muros resolveu erguer este

que se adiu a outros três, feitos por outrem,

e a um chão nascido da terra e a um tecto

caído do céu. E juntos fizeram casa

sem janela por onde se pudesse ver

as mulheres que passeiam

no descampado, prisão onde não entra

vento que despenteie nem mulheres,

nem crianças, nem ninguém que lá se diga

viver. Até porque além do muro,

dos quatro que, armados de chão e tecto,

se revestiram de bolor e ninhos de vespas

em ausente sussurro, não há vida

nem estrondo. A minha sombra fará tombar

estes muros, como fez tombar outros

– é por isso que existe este descampado,

onde passeiam mulheres despenteadas

pelo vento, onde um dia correrão crianças,

a trazer o estrondo que os muros

tombados pela minha sombra

nunca provocaram.

 

 

de A norte do calendário (2022, Medula)

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca