Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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Adormeceu encarcerada

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Adormeceu encarcerada

entre o céu e a terra, face

rubicunda da corrida, pés

em chaga como a testa

de Cristo sacrificado

na árvore humana. As rolas

embalaram-na

em pedidos de desculpa,

penitências bucólicas

cantadas do peito

e para a língua, da língua

para as coxas e além. Água

teimosa soergueu-se

dos regatos, aplaudindo

o voo das abelhas e a métrica

do desejo. O musgo

cobriu-a em marés de ansiedade,

nomeou-a víscera na toponímia

secreta do bosque e acolheu-a

no murmúrio entre as estações.

Debateu-se

no leito com o bocejo

dos recém-nascidos e

acordou do sonho

trazendo o lume na mão.

 

 

 

 

de A norte do calendário (2022, Medula)

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca