Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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Esta noite gritam-se geometrias

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Esta noite gritam-se geometrias

e escalpelizam-se lições

de ternura e canonização.

Há um vulto que se esconde

por detrás da árvore

onde gravo os nossos nomes

a toque de lâmina

convicta. Uma perturbação

setentrional desenha-se

nas costas de um mendigo e

o carreiro de formigas goteja

alaúdes sobre as dúvidas de

uma clareira invisível. Acredito

na treva com a desfaçatez

de uma serpente errante, caída

do estanho, perdida na raiva,

ebulindo-se no caldo

das semicolcheias.

 

Finto a madrugada.

Descerro cortinas e largo a rede

no mais profundo de todos

os abismos sonhados por crianças

mancas e um Saturno pubescente.

Devagar se foram conquistando

as cidades de prata e fel,

cantadas por jograis vestidos

de sombras aquáticas, refrações

empedernidas e cores sem nome.

 

Ergo a mão esquerda, exibo

linhas da vida e do amor –

e da sorte que é tê-las em par -,

mastigo gerberas

e peço o livro de reclamações.

Há um coreto de pedra e ferro

enferrujado onde gostaria

de terminar os meus dias.

Não tenho qualquer interesse

em impedir uma inundação.

Se me deixarem, correrei

até ter sol e sombra atrás

de mim, o paradoxo de toda a

Criação, sem pano para mangas.

 

Antes de ser silêncio, o silêncio

era peso. Depois, calou-se.

Nessa manhã, choveram pétalas

– um fenómeno de organização

e esperança no progresso, profetizado

por gente degolada e entregue

à justiça, por esta ordem,

ou inversa. Esta noite, gritarei

redondo, sem vértices na voz.

 

 

 

 

de A norte do calendário (2022, Medula)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca