Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta
Partilhar

Preferia quando era tudo azul. A terra era azul e os porcos eram azuis e o excremento que se me agarrava às botas era azul e o leite azul esguichava das vacas azuis para o balde azul. O moinho era azul, o cata-vento era azul, o som da ferrugem era azul e as ervas-daninhas azuis comiam-me os anos de azul. O fumo dos meus cigarros azuis era azul e as minhas unhas eram azuis e os lábios azuis com que me beijava o espelho azul tinham fome de azul e o azul era todo o alimento. Os cabrestos eram azuis e o burro era azul e a carroça azul tinha rodas azuis que me levavam pela estrada azul até ao mercado azul da cidade azul, onde comprava tudo o que era azul, comprava tudo. As casas eram azuis e os bares eram azuis e as bebidas eram azuis e as putas eram azuis e até um forasteiro como eu era azul. Depois, passou por aqui um chico-esperto e pôs tudo como está agora.

 

 

 

De e enquanto espero que me arranjem o esquentador penso em como será a vida depois do sol explodir (2015, do lado esquerdo)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca