Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Preferia quando era tudo azul. A terra era azul e os porcos eram azuis e o excremento que se me agarrava às botas era azul e o leite azul esguichava das vacas azuis para o balde azul. O moinho era azul, o cata-vento era azul, o som da ferrugem era azul e as ervas-daninhas azuis comiam-me os anos de azul. O fumo dos meus cigarros azuis era azul e as minhas unhas eram azuis e os lábios azuis com que me beijava o espelho azul tinham fome de azul e o azul era todo o alimento. Os cabrestos eram azuis e o burro era azul e a carroça azul tinha rodas azuis que me levavam pela estrada azul até ao mercado azul da cidade azul, onde comprava tudo o que era azul, comprava tudo. As casas eram azuis e os bares eram azuis e as bebidas eram azuis e as putas eram azuis e até um forasteiro como eu era azul. Depois, passou por aqui um chico-esperto e pôs tudo como está agora.

 

 

 

De e enquanto espero que me arranjem o esquentador penso em como será a vida depois do sol explodir (2015, do lado esquerdo)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca