Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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O sono do João

 

 

 

 

 

 

O João dorme… (Ó Maria,

Dize àquela cotovia

Que fale mais devagar:

Não vá o João, acordar…)

 

Tem só um palmo de altura

E nem meio de largura:

Para o amigo orangotango

O João seria… um morango!

Podia engoli-lo um leão

Quando nasce! As pombas são

Um poucochinho maiores…

Mas os astros são menores!

 

O João dorme… Que regalo!

Deixá-lo dormir, deixá-lo!

 

Calai-vos, águas do moinho!

Ó Mar! fala mais baixinho…

E tu, Mãe! e tu, Maria!

Pede àquela cotovia

Que fale mais devagar:

Não vá o João, acordar…

 

O João dorme, o Inocente!

Dorme, dorme eternamente,

Teu calmo sono profundo!

Não acordes para o Mundo,

Pode levar-te a maré:

Tu mal sabes o que isto é…

 

Ó Mãe! canta-lhe a canção,

Os versos do teu Irmão:

«Na Vida que a Dor povoa,

Há só uma coisa boa,

Que é dormir, dormir, dormir…

Tudo vai sem se sentir.»

 

Deixa-o dormir, até ser

Um velhinho… até morrer!

 

E tu vê-lo-ás crescendo

A teu lado (estou-o vendo

João! que rapaz tão lindo!)

Mas sempre, sempre dormindo…

 

Depois, um dia virá

Que (dormindo) passará

Do berço, onde agora dorme,

Para outro, grande, enorme:

E as pombas que eram maiores

Que João… ficarão menores!

 

Mas para isso, ó Maria!

Dize àquela cotovia

Que fale mais devagar:

Não vá o João, acordar…

 

E os anos irão passando.

 

Depois, já velhinho, quando

(Serás velhinha também)

Perder a cor que, hoje, tem,

Perder as cores vermelhas

E for cheiinho de engelhas,

Morrerá sem o sentir,

Isto é, deixa de dormir:

Acorda, e regressa ao seio

De Deus, que é de onde ele veio…

 

Mas para isso, ó Maria!

Pede àquela cotovia

Que fale mais devagar:

 

Não vá o João, acordar…

 

 

 

 

 

 

António Nobre

In António Nobre – Poesia Completa 1867-1900 (Dom Quixote, 2000, pp. 293-95)

texto
António Nobre
seleção e interpretação
Manuela de Freitas e Mário Viegas
produção
José Mário Branco
António José Martins
gravação
José Fortes (Angel Studios, Outubro de 1990)
publicação
UPAV - União Portuguesa de Artistas de Variedades, em 1990 (Vinil); Público, em 2006 (CD); poesia.fm, 2022 (versão digital)
agradecimento
Manuela de Freitas, Hélia Viegas, Ana Viegas Cruz, Filipe Esménio, Pedro Branco, Manuela Jorge, Paulo Ferreira e Margarida Ourique

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