reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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manuel a. domingos

Sobre o autor

manuel a. domingos (Manteigas, 1977) é professor. Estreou-se em 2002 com o livro de poemas Entre o Silêncio e o Fogo, ao qual se seguiram Mapa (2008), Teorias (2011), Penumbra (2012), Interrupção (2014), Baço (2015) e Aprendiz (2019). Em 2013, inaugurou a actividade de editor com a narrativa autobiográfica Vala Comum. Na Medula, projecto editorial que mantém activo, publicou vários livros de poesia nacional e estrangeira. Traduziu livros de Charles Bukowski, Antonio Orihuela, E. Ethelbert Miller, Stephen Crane e Xavier Queipo. Tem colaboração dispersa por várias revistas.