Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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As raparigas da minha terra

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para o Rui Costa

 

 

 

As raparigas

da minha terra

 

há muito que

deixaram de usar

 

saia rodada até

aos joelhos

 

Preferem calças

justas bem apertadas

 

na zona do rabo

frequentar esplanadas

 

beber cerveja

dizer de vez em quando

 

uma ou outra asneira

Pois as raparigas

 

da minha terra deixaram

de namorar às janelas

 

e já não passam

o tempo a arear tachos

 

Preferem antes o banco

detrás de um carro

 

O escuro da Serra

 

 

 

 

 

 

De Mapa (2008, Livrododia)

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca