Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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Um poema para Simon Armitage

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Ao contrário de ti não vivi entre ladrões

de Manchester e como tu não percorri de Leste

a Oeste os Estados Unidos com apenas um dólar

para gastar e um par de calças Levis

 

O mais longe que fui nesta velha Europa

calçado e protegido por um seguro de viagem

foi até Budapeste mais o seu rio Danúbio

que naveguei entre as nove e as dez da noite

 

Mas igual a ti e com as devidas distâncias

atirei pedras sobre a água no Poço dos Moinhos

E embora não tivesse sido em Black Moss

estava um dia igualmente calmo

 

É certo que ainda não experimentei fazer

bungee jumping duma ponte qualquer no interior

do país mas no outro dia impedi um aluno de saltar

dum primeiro andar na escola onde trabalho

 

E o desconforto na garganta o arrepio de frio

que senti no lugar mais fundo de mim

são um sinal de esperança no meio disto tudo:

ainda não sou indiferente — digo eu

 

 

 

 

inédito

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca