Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta

Um poema para Simon Armitage

Partilhar

Ao contrário de ti não vivi entre ladrões

de Manchester e como tu não percorri de Leste

a Oeste os Estados Unidos com apenas um dólar

para gastar e um par de calças Levis

 

O mais longe que fui nesta velha Europa

calçado e protegido por um seguro de viagem

foi até Budapeste mais o seu rio Danúbio

que naveguei entre as nove e as dez da noite

 

Mas igual a ti e com as devidas distâncias

atirei pedras sobre a água no Poço dos Moinhos

E embora não tivesse sido em Black Moss

estava um dia igualmente calmo

 

É certo que ainda não experimentei fazer

bungee jumping duma ponte qualquer no interior

do país mas no outro dia impedi um aluno de saltar

dum primeiro andar na escola onde trabalho

 

E o desconforto na garganta o arrepio de frio

que senti no lugar mais fundo de mim

são um sinal de esperança no meio disto tudo:

ainda não sou indiferente — digo eu

 

 

 

 

inédito

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca