Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta

Três andamentos para Mário Botas

Partilhar

Em casa não tenho espelho de corpo inteiro. Por isso esta manhã percorri as ruas à sombra dos plátanos e detive-me frente à montra de uma loja. Aproveitei para me mirar com cuidado e ver se estava apresentável para aqueles que comigo na rua se cruzaram. Sinto-me sempre um pouco mais capaz para enfrentar o mundo depois deste pequeno ritual. E enquanto me mirava reparei que alguém o fazia também. Disse-me bom dia com um aceno de cabeça acrescentando — cada qual tem o espelho que merece e vê nele exactamente aquilo que quer ver — para logo num instante desaparecer.

 

*

 

Uma mulher fixa a sua presença na vasta paisagem. Não sei o que faz ela aqui mas sinto que me observa. Não consigo ver a cor dos seus olhos. Pressinto apenas que são azuis como o rio que atrás de si corre. Ou será o mar? Então por que razão disse rio? Pouco importa. Poderia isso sim passar o dia com ela. Talvez ganhasse coragem e lhe lesse alguns dos poemas que guardo no fundo das gavetas para ocasiões como esta. Não sei se estará interessada em ouvir versos. É sempre preferível o silêncio.

 

 

*

 

Para sermos exactos a vida nada tem de original. Daí talvez a arte. E daí talvez a vida. E assim sucessivamente. Como diz o artista.

 

 

 

 

 

 

 

 

De Falar dele no céu de uma paisagem – poemas para Mário Botas (2021, volta d´mar)

 

 

 

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca