Vivian Maier, Untitled (s/d)

Sobre a fotografia da criança que se deixa posar

de braços cruzados em frente à montra repleta

de luvas e que olha Vivian nos olhos, o historiador

destacou a importância de usar relógio. No entanto,

quanto mais a observo, mais prefiro que aqui fique

registada a condição de um certo absoluto que se

percepciona naquele olhar. E não se conseguindo

definir a natureza desse absoluto, nem o seu nome,

nem o seu tempo, nem o seu lugar, contemple-se

todo o rosto, determinado pela sujidade e pelo choro,

e a ausência de um sorriso, para se entender que

o que perturba nesta imagem, tão lírica quanto real,

é o excesso de um auto-retrato.

 

 

De Untitled (2017, volta d’mar)

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Depois de ler Três Poetas Bucólicos

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para o Ricardo Marques

 

 

Frente a um copo de vinho

outras vezes bagaço

vêem o cambiante das estações

nas árvores da avenida

 

Lamentam a falta de chuva

que limpará as ruas

da merda dos pombos

que se acumula

 

Às vezes atrevem-se

num ou noutro modo

de assobiar e esperam

assim atrair um melro

 

— “algo nunca antes visto

depois de terem alcatroado

a ribeira de Benfica que corria

ali para os lados de Sete Rios” —

 

Falam com orgulho

da pequena horta junto

ao IC19 e de como ali a terra

é boa para as couves

 

Nunca leram Cesário

desconhecem o seu bucolismo

mas sabem que durante

um jogo de futebol —

 

do clube do coração —

são capazes de fumar

um a dois maços de cigarros

apesar do médico ter proibido

 

Falam com carinho do dia

em que conheceram a sua Maria

junto ao fontanário da Igreja

num dia de festa

 

nunca mais repetido

“Ah! Naquele tempo é

que era! Bota aí mais um

copo de tinto!”

 

 

 

inédito

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca