Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta

Depois de ler Três Poetas Bucólicos

Partilhar

para o Ricardo Marques

 

 

Frente a um copo de vinho

outras vezes bagaço

vêem o cambiante das estações

nas árvores da avenida

 

Lamentam a falta de chuva

que limpará as ruas

da merda dos pombos

que se acumula

 

Às vezes atrevem-se

num ou noutro modo

de assobiar e esperam

assim atrair um melro

 

— “algo nunca antes visto

depois de terem alcatroado

a ribeira de Benfica que corria

ali para os lados de Sete Rios” —

 

Falam com orgulho

da pequena horta junto

ao IC19 e de como ali a terra

é boa para as couves

 

Nunca leram Cesário

desconhecem o seu bucolismo

mas sabem que durante

um jogo de futebol —

 

do clube do coração —

são capazes de fumar

um a dois maços de cigarros

apesar do médico ter proibido

 

Falam com carinho do dia

em que conheceram a sua Maria

junto ao fontanário da Igreja

num dia de festa

 

nunca mais repetido

“Ah! Naquele tempo é

que era! Bota aí mais um

copo de tinto!”

 

 

 

inédito

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, Pedro Baptista
PontoZurca