Ilha dos Poetas Vivos

Estátuas
Neste país as estátuas desdenham alturas.
Traficam na praça, devassam estradas
Têm mãos pensativas e barro na planta dos pés.

Conceição Lima

 

 

No Dipanda escutamos vozes de poetas africanos nascidos depois de 1975. Neste episódio o palco é do coletivo Ilha dos Poeta Vivos, amantes da arte de dizer, musicar, dramatizar e cantar poesia. Conheci-os em junho na ilha de São Tomé, no contexto da Bienal de Artes e do Roça Língua. Os poetas Marty Pereira, Remy Diogo, Janaína Conceição, Raquel Lima e MILTONeladas abrem-nos o mundo desde a ilha onde vivem. Quando os poemas foram gravados, o grupo preparava A Caixa, uma performance poética que ambicionava ativar caminhos de libertação, “segredos clandestinos, verdades proféticas e viagens ancestrais”. Também nas suas palavras, pretendiam pensar fora da caixa e romper com paradigmas coloniais encaixotados. Uma libertação individual e coletiva que identifica as muitas caixas destruídas ao longo da história.

O que fazer depois da redescoberta de nós?, era o que os poetas indagavam, ali, naquelas terras do golfo da Guiné.

 

Marta Lança

 

 

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a importância do pequeno-almoço

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qualquer mulher sabe que

é preciso manter as tropas:

passar a ferro as fardas parir herdeiros esfregar o chão / de

joelhos o sarro sai melhor

quem mais poderá explicar às crianças a ausência

do soldado do empregado fabril do político fervoroso que põe

o pão na mesa

se o sexo é político, imagina as lides da casa

lavar à mão as manchas de vinho / sémen / sangue

fazer a cama quando vazia

reunir no prato os nutrientes necessários

para a capitalização do pai adúltero

depois de fazer o pequeno-almoço

as mulheres-âncora atracadas à enseada

assistem em silêncio à partida das armadas de dom joão, o

primeiro / o anterior / o pai deste

para que agora – isto não é novo –

pelo menos quinze mil machos sigam audazes.

a ideia é a de sempre:

queimar florestas / rapinar minas / estuprar indígenas / baptizar

terras que já tinham nome

reproduzir hospícios e quartos forrados a papel de parede amarelo

enterrar a semente bem funda no colo do útero

e aos poucos gerar novos e delicados manequins de mãos calejadas

deixar que a geração anterior ensine a seguinte a fazer o café

(atenção. não se faz café de qualquer maneira, é preciso formar

uma pirâmide de pó, não deixar que a água toque no funil, não

ligar de imediato na temperatura máxima, dar-lhe o tempo

certo de ebulição, mas continuando,)

vertê-lo quente na chávena de manhã

sementar esse pão vaporoso na mesa milagrosamente limpa

colher fruta fresca valorizar a louça lavada

não regressar nunca

à sodoma abandonada

porque nessa

o café já esfriou

quem faz o pequeno-almoço

sabe de tudo isto

retorna a casa só e as mãos

sempre invisíveis

costuram dores como contas de rosário

nos dentes e figos abertos no lugar dos lábios

só quem come o pequeno-almoço

tem a boca demasiado cheia

para perceber o fundamental:

é que sem elas

o mundo não chegaria sequer

ao meio dia.

 

 

 

De A Importância do Pequeno-almoço (Fresca Edições, 2020).

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca