reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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quem me comeu a carne

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era no tempo em que as famílias

ainda tinham arrecadações

limpavam os esqueletos mal dobrados

e pintavam as sebes antes

que os vizinhos vissem

ou que chegasse o outono

 

os filhos deitavam-se na palha

e durante o sono

moíam dos pais a violência

pouco a pouco

como sementes de girassol

mal maturadas

 

às mulheres

cresciam enigmas vermelhos

nas pernas

e enquanto alastrava o verão

deixavam de saber andar

arqueadas com o peso da ira

que se deitava sobre elas

 

todas as noites

as mulheres rezavam:

meu deus

quem comeu a minha carne

os meus ossos

há-de roer.

 

 

 

 

 

Inédito

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca