Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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parada nos semáforos

a minha mãe fumava

estacionada ao fundo das memórias

o último cigarro que a vi fumar

ainda me recordo

a outra mãe

estaria perto de morrer

e a minha

fumava

com a angst de quem foi

menos amada do que o merecido

mesmo assim carregava as queixas

fraldas contas o peso transladado

degrau a degrau

o olhar dela inolvidável

naquele espelho de retrovisor

(só uma matriarca saberia

enterrar outra)

minha mãe-atlas

eu via

e não sabia ainda nada

sobre mitologia grega

mas um dia vais entender

ela repetia

e só quando anteontem

me sugaram pelo umbigo

qualquer dose de indizível

(dói sempre quando decides

tirar algo enroscado na carne)

fazia um tornado em berlin

eu tinha saído na mesma à rua

e chorava agora para dentro

naquela maca improvisada

a christina dizia, o corpo tem memória

e é do umbigo que vem

a saudade do ventre

as árvores caíam lá fora

raízes monstras inteiras sugadas

do chão e a minha mãe

a dois mil e oitenta e quatro

cigarros fumados

naquele renault clio bordeaux

no ano de mil novecentos e noventa e oito

quando eu não sabia ainda

de mitologia ou que a mãe

deixaria de fumar pouco mais tarde

eu ainda não sabia

da vénus de milo da carla

desenhada a sangue menstrual ou da

mulher turca abraçando o filho asmático

na piscina pública de kreuzberg

mas podia adivinhar já

alguns semáforos ininterruptos

a memória do umbigo, esta solidão hereditária:

cromossoma X.

 

 

 

De A Importância do Pequeno-almoço (Fresca Edições, 2020)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca