reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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parada nos semáforos

a minha mãe fumava

estacionada ao fundo das memórias

o último cigarro que a vi fumar

ainda me recordo

a outra mãe

estaria perto de morrer

e a minha

fumava

com a angst de quem foi

menos amada do que o merecido

mesmo assim carregava as queixas

fraldas contas o peso transladado

degrau a degrau

o olhar dela inolvidável

naquele espelho de retrovisor

(só uma matriarca saberia

enterrar outra)

minha mãe-atlas

eu via

e não sabia ainda nada

sobre mitologia grega

mas um dia vais entender

ela repetia

e só quando anteontem

me sugaram pelo umbigo

qualquer dose de indizível

(dói sempre quando decides

tirar algo enroscado na carne)

fazia um tornado em berlin

eu tinha saído na mesma à rua

e chorava agora para dentro

naquela maca improvisada

a christina dizia, o corpo tem memória

e é do umbigo que vem

a saudade do ventre

as árvores caíam lá fora

raízes monstras inteiras sugadas

do chão e a minha mãe

a dois mil e oitenta e quatro

cigarros fumados

naquele renault clio bordeaux

no ano de mil novecentos e noventa e oito

quando eu não sabia ainda

de mitologia ou que a mãe

deixaria de fumar pouco mais tarde

eu ainda não sabia

da vénus de milo da carla

desenhada a sangue menstrual ou da

mulher turca abraçando o filho asmático

na piscina pública de kreuzberg

mas podia adivinhar já

alguns semáforos ininterruptos

a memória do umbigo, esta solidão hereditária:

cromossoma X.

 

 

 

De A Importância do Pequeno-almoço (Fresca Edições, 2020)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca