Ilha dos Poetas Vivos

Estátuas
Neste país as estátuas desdenham alturas.
Traficam na praça, devassam estradas
Têm mãos pensativas e barro na planta dos pés.

Conceição Lima

 

 

No Dipanda escutamos vozes de poetas africanos nascidos depois de 1975. Neste episódio o palco é do coletivo Ilha dos Poeta Vivos, amantes da arte de dizer, musicar, dramatizar e cantar poesia. Conheci-os em junho na ilha de São Tomé, no contexto da Bienal de Artes e do Roça Língua. Os poetas Marty Pereira, Remy Diogo, Janaína Conceição, Raquel Lima e MILTONeladas abrem-nos o mundo desde a ilha onde vivem. Quando os poemas foram gravados, o grupo preparava A Caixa, uma performance poética que ambicionava ativar caminhos de libertação, “segredos clandestinos, verdades proféticas e viagens ancestrais”. Também nas suas palavras, pretendiam pensar fora da caixa e romper com paradigmas coloniais encaixotados. Uma libertação individual e coletiva que identifica as muitas caixas destruídas ao longo da história.

O que fazer depois da redescoberta de nós?, era o que os poetas indagavam, ali, naquelas terras do golfo da Guiné.

 

Marta Lança

 

 

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Francisca Camelo [compacto]

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Seleccionar o que ler para outros é um complexo jogo de holofotes.

Se no ofício da pintura se desbravam imagens, trazendo à luz um espelho interno que se quer exposto, na poesia, o exercício é o de um jogo de mímica do real, de fantoches que se fazem vivos, fantasmas que se tornam palpáveis de repente por artifício das palavras escolhidas a dedo para desenhar o rosto a projectar no papel. Não é, no entanto, por falarmos dos cadáveres, das suas formas anteriormente arredondadas e do que costumavam dizer-nos que eles se levantam das campas. Haverá sempre rostos escondidos nos retratos projectados.

Escrever é, por isso, uma forma de mentir muito bem.

E escolher a dedo o que ler em voz alta, de tudo o que escrevemos antes, é também a melhor forma de mentir. Honestamente, dizemos: é isto que eu quero que ouçam, é esta a minha consciência, é isto o que sei do que escrevo.

Daí que eu diga: parece-me ser isto, talvez sejam estes os poemas que devo dizer em voz alta, talvez sejam estes os meus grandes fantasmas.

Talvez esteja a mentir, mas nem disso estou segura: mentir bem é também deixar de saber a diferença entre o que é fictício e o que se tornou a cama onde dormimos quando chega a noite.

 

 

Francisca Camelo

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca