reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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Francisca Camelo [compacto]

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Seleccionar o que ler para outros é um complexo jogo de holofotes.

Se no ofício da pintura se desbravam imagens, trazendo à luz um espelho interno que se quer exposto, na poesia, o exercício é o de um jogo de mímica do real, de fantoches que se fazem vivos, fantasmas que se tornam palpáveis de repente por artifício das palavras escolhidas a dedo para desenhar o rosto a projectar no papel. Não é, no entanto, por falarmos dos cadáveres, das suas formas anteriormente arredondadas e do que costumavam dizer-nos que eles se levantam das campas. Haverá sempre rostos escondidos nos retratos projectados.

Escrever é, por isso, uma forma de mentir muito bem.

E escolher a dedo o que ler em voz alta, de tudo o que escrevemos antes, é também a melhor forma de mentir. Honestamente, dizemos: é isto que eu quero que ouçam, é esta a minha consciência, é isto o que sei do que escrevo.

Daí que eu diga: parece-me ser isto, talvez sejam estes os poemas que devo dizer em voz alta, talvez sejam estes os meus grandes fantasmas.

Talvez esteja a mentir, mas nem disso estou segura: mentir bem é também deixar de saber a diferença entre o que é fictício e o que se tornou a cama onde dormimos quando chega a noite.

 

 

Francisca Camelo

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca