reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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no alto do morro do pão de açúcar

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no alto do morro

do pão de açúcar

há um teleférico

brincam crianças dentro dele

e quarenta milhões de pessoas depois

ainda se vêm do teleférico

a baía de guanabara

o cristo redentor

e as morenas de copacabana

 

do alto do morro

do pão de açúcar

crianças assistem

sem saber

em contraluz

à poeira que se põe

na praia vermelha

 

elas não sabem

que é em contraluz

porque desconhecem ainda

o conceito

de lado certo da sombra

algo que será difícil determinar

se foi aprendido

na fotografia da sua própria retina

ou vagarosamente ruminado

através dos adultos

ao longo dos anos

 

algo também difícil de saber

é a temperatura que faz

no rio de janeiro

quando a quarenta graus dali

medidos por mim a compasso

no mapa mundi do ecrã

passa na televisão o lago dos cisnes

ao som de bombas de fragmentação

 

em plena guerra fria

na década de sessenta

uma prima ballerina

é aplaudida de pé

no new york city ballet

 

já sem poder mover as pernas

formular frases compridas

ou sair da cadeira

num lar de idosos em espanha

a mesma bailarina

dança hoje tchaikovsky outra vez

é o mesmo ecrã

mas longe das bombas

e ninguém aplaude

 

no alto do morro

do pão de açúcar

ainda se vê guanabara

copacabana e

toda a poeira

mas alguém deixou

de saber

medir os ângulos

 

e avaliando o esquadro a qualidade

da medição a transigência

do tempo a amplitude térmica

do mundo os risos das crianças

no alto do morro do pão de açúcar

 

a bailarina vê tudo isto

e avisa:

temos de arranjar as pontas.

 

 

 

 

Inédito

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca