Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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no alto do morro do pão de açúcar

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no alto do morro

do pão de açúcar

há um teleférico

brincam crianças dentro dele

e quarenta milhões de pessoas depois

ainda se vêm do teleférico

a baía de guanabara

o cristo redentor

e as morenas de copacabana

 

do alto do morro

do pão de açúcar

crianças assistem

sem saber

em contraluz

à poeira que se põe

na praia vermelha

 

elas não sabem

que é em contraluz

porque desconhecem ainda

o conceito

de lado certo da sombra

algo que será difícil determinar

se foi aprendido

na fotografia da sua própria retina

ou vagarosamente ruminado

através dos adultos

ao longo dos anos

 

algo também difícil de saber

é a temperatura que faz

no rio de janeiro

quando a quarenta graus dali

medidos por mim a compasso

no mapa mundi do ecrã

passa na televisão o lago dos cisnes

ao som de bombas de fragmentação

 

em plena guerra fria

na década de sessenta

uma prima ballerina

é aplaudida de pé

no new york city ballet

 

já sem poder mover as pernas

formular frases compridas

ou sair da cadeira

num lar de idosos em espanha

a mesma bailarina

dança hoje tchaikovsky outra vez

é o mesmo ecrã

mas longe das bombas

e ninguém aplaude

 

no alto do morro

do pão de açúcar

ainda se vê guanabara

copacabana e

toda a poeira

mas alguém deixou

de saber

medir os ângulos

 

e avaliando o esquadro a qualidade

da medição a transigência

do tempo a amplitude térmica

do mundo os risos das crianças

no alto do morro do pão de açúcar

 

a bailarina vê tudo isto

e avisa:

temos de arranjar as pontas.

 

 

 

 

Inédito

 

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca