Há postos para a poesia?

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Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Morrer não é boa ideia. Morrer no mesmo dia de Estaline, pior.

Assim que, Serguei, fosses um grande ulmeiro

tombando, abafado sob a grande sombra

(e o som tem a sua sombra) de tortuoso carvalho.

Naquele 5 do 3 de 53, a plaina irracional da vida

levou um compositor e um ditador

que até na morte esmagou o primeiro

e o abafou abrupto com um estampido no tampo

sobre as cordas, martelo sobre martelos.

Assim as delicadas nervuras, caneluras, tessituras

das tuas tocatas batessem mais uma vez

contra o tecto baixo de um ditado rítmico,

arranhadas pelos plectros de tirânico bigode.

E em sombra póstuma, mais uma vez, Serguei,

te  viste esmagado pela bruteza de um estado policial

que esqueceu o músico e honrou o assassino.

Diz-se que uma humilhação mais se quis póstuma:

que o teu corpo ficasse retido na casa funerária

na hora de ponta fúnebre que congestionou a tua última marcha.

E agora, não só a notícia ou a memória ou a opressão,

também na morte te ensurdeceu e obnubilou

o ditador em esquife saindo abafando

com estrondo a tampa meio aberta do pianista.

E cá para nós, Serguei, o artista fará sempre vénia ao opressor.

Já para não falar que Joseph tinha mais dedos do que tu.

 

 

 

 

 

De Cães de chuva (2021, Assírio & Alvim)

data de publicação
16.02.2022
GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca
agradecimentos
E-learning Café Botânico e Teatro Carlos Alberto