Margarida, uma voz onde cabem muitas vozes

Margarida Antunes tem dedicado a vida ao canto. Uma voz que se procura, que se encontra com outras, que semeia.

 

Na infância passou um ano e meio em França, onde o pai esteve emigrado antes do 25 de Abril. Uma experiência que terá contribuído para se tornar assessora de imprensa no Instituto Franco-Português, onde passou a maior parte da sua vida profissional.

 

Antes disso, logo depois da revolução, integrou o GAC – Grupo de Ação Cultural – Vozes na Luta. Ao lado de figuras como José Mário Branco, Fausto ou Luís Pedro Faro, entre tantos outros, percorreu um país pobre e analfabeto, onde faltava tudo, e onde militares e camponeses, por um período breve mas prodigioso, se juntaram a eles num coro pela liberdade e pela justiça social.

 

Já reformada, não lhe sobra muito tempo para descansar. Faz parte da direção da Biblioteca Operária Oeirense, a mais antiga de Oeiras, e da Associação de Canto a Vozes – Fala de Mulheres, responsável pelo pedido de inscrição do canto de mulheres na lista nacional de património cultural imaterial, e é uma das fundadoras do grupo coral feminino Cramol, com mais de quatro décadas de vida e ativíssimo, entre concertos, oficinas de canto e organização de conferências.

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Morrer não é boa ideia. Morrer no mesmo dia de Estaline, pior.

Assim que, Serguei, fosses um grande ulmeiro

tombando, abafado sob a grande sombra

(e o som tem a sua sombra) de tortuoso carvalho.

Naquele 5 do 3 de 53, a plaina irracional da vida

levou um compositor e um ditador

que até na morte esmagou o primeiro

e o abafou abrupto com um estampido no tampo

sobre as cordas, martelo sobre martelos.

Assim as delicadas nervuras, caneluras, tessituras

das tuas tocatas batessem mais uma vez

contra o tecto baixo de um ditado rítmico,

arranhadas pelos plectros de tirânico bigode.

E em sombra póstuma, mais uma vez, Serguei,

te  viste esmagado pela bruteza de um estado policial

que esqueceu o músico e honrou o assassino.

Diz-se que uma humilhação mais se quis póstuma:

que o teu corpo ficasse retido na casa funerária

na hora de ponta fúnebre que congestionou a tua última marcha.

E agora, não só a notícia ou a memória ou a opressão,

também na morte te ensurdeceu e obnubilou

o ditador em esquife saindo abafando

com estrondo a tampa meio aberta do pianista.

E cá para nós, Serguei, o artista fará sempre vénia ao opressor.

Já para não falar que Joseph tinha mais dedos do que tu.

 

 

 

 

 

De Cães de chuva (2021, Assírio & Alvim)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca
agradecimentos
E-learning Café Botânico e Teatro Carlos Alberto