Vanessa, pintora de azulejos de papel

Há quem pinte com palavras e veja o mundo em fractais azulados. Vanessa da Paz veio de Florianopolis, a ilha mágica do Estado de Santa Catarina, no Brasil. Chegou ao Coletivo Bandido, em Oeiras, seguindo o fio do acaso. A contemplação, as cores garridas e a deambulação ocupam os seus dias. À noite, no atelier oeirense, fixa em azulejos de papel cenas vividas entre Alfama, o Chiado, as praias em torno e por onde a leve a arte.

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Morrer não é boa ideia. Morrer no mesmo dia de Estaline, pior.

Assim que, Serguei, fosses um grande ulmeiro

tombando, abafado sob a grande sombra

(e o som tem a sua sombra) de tortuoso carvalho.

Naquele 5 do 3 de 53, a plaina irracional da vida

levou um compositor e um ditador

que até na morte esmagou o primeiro

e o abafou abrupto com um estampido no tampo

sobre as cordas, martelo sobre martelos.

Assim as delicadas nervuras, caneluras, tessituras

das tuas tocatas batessem mais uma vez

contra o tecto baixo de um ditado rítmico,

arranhadas pelos plectros de tirânico bigode.

E em sombra póstuma, mais uma vez, Serguei,

te  viste esmagado pela bruteza de um estado policial

que esqueceu o músico e honrou o assassino.

Diz-se que uma humilhação mais se quis póstuma:

que o teu corpo ficasse retido na casa funerária

na hora de ponta fúnebre que congestionou a tua última marcha.

E agora, não só a notícia ou a memória ou a opressão,

também na morte te ensurdeceu e obnubilou

o ditador em esquife saindo abafando

com estrondo a tampa meio aberta do pianista.

E cá para nós, Serguei, o artista fará sempre vénia ao opressor.

Já para não falar que Joseph tinha mais dedos do que tu.

 

 

 

 

 

De Cães de chuva (2021, Assírio & Alvim)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca
agradecimentos
E-learning Café Botânico e Teatro Carlos Alberto