Há postos para a poesia?

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Ortografias abertas

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Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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O projeccionista

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Ouvi contar que durante a primeira grande guerra

ex-combatentes sem rosto se escondiam

atrás da bobine como projeccionistas

durante a idade de ouro do mudo.

 

Como bustos romanos, sem narizes,

rinocerontes mutilados, entricheirando-se

nas sombras realistas no outro lado da lanterna

mágica, quasímodos de sétima arte,

 

a besta de onde a bela luz

de Griffith, Gance e Sjöström

brotava para banhar os seus corpos

atléticos, esbeltos, imensuráveis.

 

Assim, jorrava a luz como água cristalina,

arte disparada de negra gárgula!

Assim, Europa, ilusória tela, tu,

das valas de quantos narizes te não projectas!

 

 

 

 

De Cães de chuva (2021, Assírio & Alvim)

data de publicação
15.04.2022
GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca
agradecimentos
E-learning Café Botânico e Teatro Carlos Alberto