Há postos para a poesia?

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In ti mi da de

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Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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[Quando Marga amou Juan Ramón]

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Ó noite, ó sino de emboscada!

Rezou ao gume o dúbio peito

O céu pendeu do parapeito

O som bateu em retirada

Quando Marga amou Juan Ramón

 

Quando Marga amou Juan Ramón

Secou o riso nas tabernas

A praça rechaçou o sol

O sangue encheu o arrebol

O busto achou as suas pernas

Quando Marga amou Juan Ramón

 

Quando Marga amou Juan Ramón

A água coagulou na fonte

O choro veio sobre o bobo

O cervo veio sobre o lobo

E a dúvida pensou na ponte

Quando Marga amou Juan Ramón

 

Quando Marga amou Juan Ramón

A boca vomitou o beijo

A esfinge errou a adivinha

Rugiu o coração da pinha

A cor tremeu no azulejo

Quando Marga amou Juan Ramón

 

Quando Marga amou Juan Ramón

O pano enxotou o vento

Sangrou a pétala a papoila

O velho morreu de moçoila

Perdeu-se em dois um sentimento

Quando Marga amou Juan Ramón

 

Quando Marga amou Juan Ramón

Um astro disparou de um lábio

O sal cercou o alcaçuz

Urdiu-se um cristo em ponto cruz

O velho apodreceu de sábio

Quando Marga amou Juan Ramón

 

Quando a Marga amou Juan Ramón

A luz correu prà sua foz

O gás asfixiou a aldeia

O invento perdeu a ideia

O ovo seduziu a noz

Quando Marga amou Juan Ramón

 

Quando Marga amou Juan Ramón

A pedra guardou seu segredo

Um grilo fez-se ao longo breu

Eremita, uma onda ardeu

O ferro confessou seu medo

Quando Marga amou Juan Ramón

 

Quando Marga amou Juan Ramón

A lágrima caiu do goivo

Fechou-se o punho da conquilha

Em dois se fez a triste ilha

Num féretro passou o noivo

Quando Marga amou Juan Ramón

 

Quando Marga amou Juan Ramón

Baliu a sarça o cordeiro

O mar despiu a sua espuma

Caiu do promontório o puma

A noite caiu num cinzeiro

Quando Marga amou Juan Ramón

 

 

 

 

De Cães de chuva (2021, Assírio & Alvim)

data de publicação
17.04.2022
GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca
agradecimentos
E-learning Café Botânico e Teatro Carlos Alberto