Há postos para a poesia?

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Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Um poema é

sobre um ferro que emperra.

Um poema é

sobre um albatroz que erra

sem destino onde pousar as grandes asas.

Um poema é

sobre lídimas manhãs e mínimas ondinas.

Um poema é

o crepe sobre o féretro.

Um poema é

pode ser outra coisa

que não esta frustração diária e crónica,

o mento anarco-sindical, os tampões

da raiva e da rebarba.

Um poema é

de repente a bela plaina do oceano

que um pachorrento ferro lhe engome

transatlântico o vinco daquela dobra além

e o sol um gânglio no pescoço da tarde.

Um poema é

sobre mãos sobre mãos

sobre irmãos que são amigos

e amigos que hoje não se são.

É sobre um assado que se perfuma na perfeição,

é sobre eu e tu e nós no parque

ou no cinema ou passeando na rua

com popcorns ou frites de l’Eugene

tirando a felicidade aos poucos do pacote,

consultando as horas do último bus.

Um poema é

a balsa que se chora no Egeu,

a trágica ampulheta a toda a hora.

É coser o cílio ao sobrolho

com os fios das pestanas

e apagar para sempre a fina dor do que se vê.

Um poema é

querer o mundo e darem-nos Sto. Ildefonso

e ver em Sto. Ildefonso o mundo que se queria

e afinal sorrirmos sobre lágrimas

e ouvir as últimas, a pilha já esgotada,

o transístor que se morre…

Tirarmos-lhe a função às sacudidelas

como a um ente querido que se abana

a quem negamos a extrema-unção da abdicação

ou o soldado que espreme o seu amigo

e o levita de uma cama de campanha.

Um poema é minha mãe, és o meu porto.

Um poema é não me deixes ir ao fundo.

E é tão ingente e tão distante o mundo

que, meu pai, ensina-me a andar sobre águas,

a mão da fé não tires, não

meu pai do céu, meu pai do chão.

Um poema é

a medida de envelhecermos,

tendermos a gostar de flores, de pássaros, de.

Um poema é,

como alguém dizia, primeiro o ambiente,

depois o serviço, por fim a comida.

Um fascinante brilho vem das tuas mãos,

Javalis, châteaus, tâmaras, acção.

Sentar em plásticos tronos

a contemplar a equidistante espera.

Um poema é

um acrílico, um gavetão, um

eglefim dos pobres e o vitelo dos toffs.

Um poema é

ser rapaz de há uma eternidade atrás.

Um poema é

façamos algo de físico

como trepar àquele freixo, beber daquela água,

entrar no elevador após um dia de consumição,

dependurar o corpo, os ossos, o estandarte da roupa.

Um poema é

a tristeza da roupa acamada

guardada no furgão antes da feira.

É o sono dos justos, a marmita dos rentes.

Um poema é

a monção no vazio do alto-mar,

um coração que abre como uma romã,

a alma da uva no vinho, a renda da manhã

que derrama a luz nos pátios do sono.

Um poema é

não tenho força para a revolta,

morreu-me o cão, a pátria, a absolvição.

Um Poema és.

Um poema é

após o fim,

depois da morte,

a última siesta antes do corno fatal,

antes do último sopro sobre a terra

na vibração da cabra

combalida sobre o lenho no casco.

Era sobre a morte após a morte

depois do fim.

Um poema é

o fim depois do fim

após a morte, antes da terra.

 

 

 

 

De Cães de chuva (2021, Assírio & Alvim)

data de publicação
13.04.2022
GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca
agradecimentos
E-learning Café Botânico e Teatro Carlos Alberto