Margarida, uma voz onde cabem muitas vozes

Margarida Antunes tem dedicado a vida ao canto. Uma voz que se procura, que se encontra com outras, que semeia.

 

Na infância passou um ano e meio em França, onde o pai esteve emigrado antes do 25 de Abril. Uma experiência que terá contribuído para se tornar assessora de imprensa no Instituto Franco-Português, onde passou a maior parte da sua vida profissional.

 

Antes disso, logo depois da revolução, integrou o GAC – Grupo de Ação Cultural – Vozes na Luta. Ao lado de figuras como José Mário Branco, Fausto ou Luís Pedro Faro, entre tantos outros, percorreu um país pobre e analfabeto, onde faltava tudo, e onde militares e camponeses, por um período breve mas prodigioso, se juntaram a eles num coro pela liberdade e pela justiça social.

 

Já reformada, não lhe sobra muito tempo para descansar. Faz parte da direção da Biblioteca Operária Oeirense, a mais antiga de Oeiras, e da Associação de Canto a Vozes – Fala de Mulheres, responsável pelo pedido de inscrição do canto de mulheres na lista nacional de património cultural imaterial, e é uma das fundadoras do grupo coral feminino Cramol, com mais de quatro décadas de vida e ativíssimo, entre concertos, oficinas de canto e organização de conferências.

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Adriana Crespo [compacto]

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Estes poemas pertencem a um conjunto de livros inéditos cujos elementos ultimamente têm aparecido na minha cabeça. Pertencem aos Sonetos de Amor e Morte, da Maria do Mar, ao Quase Nada, do Artur Borboleta, às Orações a um Deus Desconhecido, da Françoise M., ao livro que escrevi a duas mãos com a Isabel Aguiar e ao Saiba porque é que os Extraterrestres não nos contactam, do Orlando I.

 

São visitas sem aviso prévio e que por não ter papel e caneta à mão ou por estar ao volante tenho por vezes registado com a ajuda do gravador do telemóvel, embora fique surpreendida ao encontrar a minha voz, mais ainda nestas gravações imprevistas, esburacadas por longas pausas. Logo agora e curiosamente surge este convite para dar voz a estes poemas: estranhos acasos. Por vezes a cabeça dispara e é um poema (ou acho que é um poema) ou é qualquer coisa que está escrita e que estou a ler, mas com o ouvido interior, isto é, com som mudo. Infelizmente é tudo muito rápido e tenho sempre a sensação de correr atrás de visões (sem câmara). Ao longo destes anos tenho tentado arranjar uma técnica para capturar essa corrente que passa mas sinto que é bastante imperfeita, tosca, por assim dizer, para capturar essa velocidade. Como uma máquina primitiva, demasiado lenta. Embora esta técnica de resgate de uma coisa que acontece e que se perde, na verdade, não chegue realmente a saber se é boa se é má – porque estou a comparar duas coisas incomparáveis, uma, que desapareceu, e outra, com a qual fiquei.

 

Portanto, a sensação vale o que vale. Estes poemas todos eles têm este aspecto comum: apareceram de um modo intempestivo. Não sei se foram visitas agradáveis, mas talvez deva dizer que sim. A alegria é grande. Ou melhor, é uma espécie de excitação infantil. Reunidos os poemas, observei no entanto que o conjunto fazia muito sentido e que era, por assim dizer, bastante coeso e expressivo quanto ao que mais me ocupa, ainda que os seus elementos tenham surgido por acaso. Não vou agora acrescentar mais, porque dizer mais é dizer demais. Os poemas falam por si.

 

 

Adriana Crespo

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
MASTERIZAÇÃO
PontoZurca