Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Adriana Crespo [compacto]

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Estes poemas pertencem a um conjunto de livros inéditos cujos elementos ultimamente têm aparecido na minha cabeça. Pertencem aos Sonetos de Amor e Morte, da Maria do Mar, ao Quase Nada, do Artur Borboleta, às Orações a um Deus Desconhecido, da Françoise M., ao livro que escrevi a duas mãos com a Isabel Aguiar e ao Saiba porque é que os Extraterrestres não nos contactam, do Orlando I.

 

São visitas sem aviso prévio e que por não ter papel e caneta à mão ou por estar ao volante tenho por vezes registado com a ajuda do gravador do telemóvel, embora fique surpreendida ao encontrar a minha voz, mais ainda nestas gravações imprevistas, esburacadas por longas pausas. Logo agora e curiosamente surge este convite para dar voz a estes poemas: estranhos acasos. Por vezes a cabeça dispara e é um poema (ou acho que é um poema) ou é qualquer coisa que está escrita e que estou a ler, mas com o ouvido interior, isto é, com som mudo. Infelizmente é tudo muito rápido e tenho sempre a sensação de correr atrás de visões (sem câmara). Ao longo destes anos tenho tentado arranjar uma técnica para capturar essa corrente que passa mas sinto que é bastante imperfeita, tosca, por assim dizer, para capturar essa velocidade. Como uma máquina primitiva, demasiado lenta. Embora esta técnica de resgate de uma coisa que acontece e que se perde, na verdade, não chegue realmente a saber se é boa se é má – porque estou a comparar duas coisas incomparáveis, uma, que desapareceu, e outra, com a qual fiquei.

 

Portanto, a sensação vale o que vale. Estes poemas todos eles têm este aspecto comum: apareceram de um modo intempestivo. Não sei se foram visitas agradáveis, mas talvez deva dizer que sim. A alegria é grande. Ou melhor, é uma espécie de excitação infantil. Reunidos os poemas, observei no entanto que o conjunto fazia muito sentido e que era, por assim dizer, bastante coeso e expressivo quanto ao que mais me ocupa, ainda que os seus elementos tenham surgido por acaso. Não vou agora acrescentar mais, porque dizer mais é dizer demais. Os poemas falam por si.

 

 

Adriana Crespo

data de publicação
13.04.2022
GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
MASTERIZAÇÃO
PontoZurca