Há postos para a poesia?

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Sintonias do tempo

In ti mi da de

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Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Contraponto para Isabel Aguiar

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(suicidou-se em Novembro de 2021)

 

 

O rosto é que é a máscara.

É preciso inventar qualquer coisa para poder tirar o rosto.

É preciso fazê-lo depressa, antes que se acabe o tempo.

Colocar chapeuzinhos de sol nos pulsos e nos tornozelos.

Uma saia de palha, como nas tribos da Guiné.

Máscaras rectangulares, como dançarinos do Mali.

Que espanto, o rosto no espelho.

Que estranheza.

Teria três, quatro anos?

Perguntava: é isto?

Esperava talvez que fosse outra coisa.

Coala, tigre, lagarto, borboleta, flor.

Tudo num rosto parece tão desavindo.

Os olhos, o nariz, os dentes, o cabelo, as pestanas, as sobrancelhas.

A boca por dentro. As amígdalas.

Será que conseguirei um dia amar o meu rosto?

Em fotografias que já não são as do meu rosto actual,

então de súbito sinto que aquilo era eu.

Mas o tempo voa.

A consciência de ser alguma coisa está sempre desfasada.

Talvez um dia depois de morta

olhe para o meu último rosto muito enrugado e suspire por ele.

Teremos certamente um ou mais rostos por ano.

Talvez a maior estranheza seja não ser outra coisa.

Um pássaro.

Uma chita veloz. Um raio de luz.

Uma pedra. Uma nuvem de pó.

Será a memória filogenética

ou antes a possibilidade de ser realmente qualquer coisa mais plástica?

Uma expressão mais abstracta e acidental da vida?

Talvez seja só a simples sensação de ter sido um embrião no ventre materno

que em tempos abandonou as guelras e em que as mãos,

antes de se separarem os dedos, foram barbatanas.

 

 

 

De Nada existe que tenha sido uma lembrança inédita (livro inédito, escrito com Isabel Aguiar)

data de publicação
09.04.2022
GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca