Margarida, uma voz onde cabem muitas vozes

Margarida Antunes tem dedicado a vida ao canto. Uma voz que se procura, que se encontra com outras, que semeia.

 

Na infância passou um ano e meio em França, onde o pai esteve emigrado antes do 25 de Abril. Uma experiência que terá contribuído para se tornar assessora de imprensa no Instituto Franco-Português, onde passou a maior parte da sua vida profissional.

 

Antes disso, logo depois da revolução, integrou o GAC – Grupo de Ação Cultural – Vozes na Luta. Ao lado de figuras como José Mário Branco, Fausto ou Luís Pedro Faro, entre tantos outros, percorreu um país pobre e analfabeto, onde faltava tudo, e onde militares e camponeses, por um período breve mas prodigioso, se juntaram a eles num coro pela liberdade e pela justiça social.

 

Já reformada, não lhe sobra muito tempo para descansar. Faz parte da direção da Biblioteca Operária Oeirense, a mais antiga de Oeiras, e da Associação de Canto a Vozes – Fala de Mulheres, responsável pelo pedido de inscrição do canto de mulheres na lista nacional de património cultural imaterial, e é uma das fundadoras do grupo coral feminino Cramol, com mais de quatro décadas de vida e ativíssimo, entre concertos, oficinas de canto e organização de conferências.

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Contraponto para Isabel Aguiar

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(suicidou-se em Novembro de 2021)

 

 

O rosto é que é a máscara.

É preciso inventar qualquer coisa para poder tirar o rosto.

É preciso fazê-lo depressa, antes que se acabe o tempo.

Colocar chapeuzinhos de sol nos pulsos e nos tornozelos.

Uma saia de palha, como nas tribos da Guiné.

Máscaras rectangulares, como dançarinos do Mali.

Que espanto, o rosto no espelho.

Que estranheza.

Teria três, quatro anos?

Perguntava: é isto?

Esperava talvez que fosse outra coisa.

Coala, tigre, lagarto, borboleta, flor.

Tudo num rosto parece tão desavindo.

Os olhos, o nariz, os dentes, o cabelo, as pestanas, as sobrancelhas.

A boca por dentro. As amígdalas.

Será que conseguirei um dia amar o meu rosto?

Em fotografias que já não são as do meu rosto actual,

então de súbito sinto que aquilo era eu.

Mas o tempo voa.

A consciência de ser alguma coisa está sempre desfasada.

Talvez um dia depois de morta

olhe para o meu último rosto muito enrugado e suspire por ele.

Teremos certamente um ou mais rostos por ano.

Talvez a maior estranheza seja não ser outra coisa.

Um pássaro.

Uma chita veloz. Um raio de luz.

Uma pedra. Uma nuvem de pó.

Será a memória filogenética

ou antes a possibilidade de ser realmente qualquer coisa mais plástica?

Uma expressão mais abstracta e acidental da vida?

Talvez seja só a simples sensação de ter sido um embrião no ventre materno

que em tempos abandonou as guelras e em que as mãos,

antes de se separarem os dedos, foram barbatanas.

 

 

 

De Nada existe que tenha sido uma lembrança inédita (livro inédito, escrito com Isabel Aguiar)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca