Há postos para a poesia?

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In ti mi da de

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Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Presque Rien e [Impressão directa do esplendor]

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Presque rien

 

Diz-me que renasço
como as pequenas flores
diz-me… diz que é possível
nascer de novo agora
em Maio e em Junho
como breve espiga,
margarida, malmequer.
Diz-me, vida, que não vou
mais ser gente, não mais,
apenas flor… e das flores
a brevidade e quem sabe…
a volta eterna.

 

 

 

[Impressão directa do esplendor]

 

É de noite agora neste momento

em que dou de caras com o esplendor.

É verdade.

Em quase tudo, se paro,

encontro este diáfano que se acende:

o esplendor.

Nesta grua que se eleva

no estaleiro dos prédios em construção

entre andaimes, tapumes e holofotes,

nesta grua

que se eleva

nas cores difusas e nocturnas

como um fantasma

e até nas cruzes em tinta branca

que marcam os vidros por acabar

(das janelas por acabar)

há uma fala que diz:

proibido

proibido passar

como alguém que marca

um sinal

aqui

no diáfano

da penumbra iluminada

da noite

onde canta o esplendor.

Infinito. Frio. Monumental.

Em que há uma bondade…

uma bondade…

não sei se distante de tão grande,

se fria de tão infinita.

Bondade imensa e não humana

que o pensamento não toca mas sente.

Onde está o erro de lógica

com que sempre te penso, Deus?

Onde está a dificuldade

com que não consigo pensar-te?

E no entanto sinto-te.

Tenho saudades, tantas,

tantas, tantas saudades,

saudades agudas

do que estou a ver agora.

Porque o que vejo é tão grande

e tão belo que me dói

a ideia de quando aqui já não estiver.

Se eu pudesse gravar tudo o que vejo.

Não em palavras, nem películas.

Não.

Se eu pudesse gravar para sempre

talvez numa outra alma infinita tudo o que vejo.

Hoje dei de caras com uma fotografia.

Era uma rua de Coimbra.

Olhei para essa fotografia

e houve qualquer coisa em mim que disparou

como um cavalo em corrida,

como uma estrela cadente.

O que foi?

Há tantos anos atrás

(lembrei-me!)

calcorreei essa rua todos os dias

para ir estudar piano

num quarto que não era meu.

Que linda rua, toda forrada de prédios antigos

e imaginativos, irregulares, suaves.

Repletos de curiosos e cândidos detalhes.

O que me aconteceu?

O que foi?

 

 

 

De Quase Nada, de Artur Borboleta (livro inédito)

 

data de publicação
08.04.2022
GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca