Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

Em qual playlist quer adicionar esta peça?

Tem a certeza que pretende eliminar a lista ?

Necessita de estar registado para adicionar favoritos

Login Criar conta

Oração a um deus desconhecido

Partilhar

Vida que vejo como linha invisível que traça no céu a ave veloz,

voando em pura e altiva liberdade, no ar suspensa,
e que vejo como movimento infinito de mil seres,
cada um em seus vários momentos de glória, entre o nascimento e a morte,
coroa de luz, périplo de um sopro que respira,
tu és o esplendor vivo de todas as coisas mudas que cantam,
porque a tua presença é um hino.
E são as flores que se erguem intocáveis nos campos,
e que o vento raras vezes desequilibra,
são as árvores de ramos esticados em direcção ao infinito,
com as folhas penduradas sob o abismo das galáxias,
são as crianças acabadas de nascer, que as mãos recebem,
despidas e sem palavras, e que gritam,
e os animais mudos que a natureza abriga, e os caminhos entre as terras,
são as pedras silenciosas que nas encostas dos montes se amontoam
em discreta harmonia,
são estes mudos que não falam quem canta mais alto em tua glória
e o silêncio das paisagens quase ensurdece, vida espantosa,
pela intensidade inominável
com que te celebra.

 

 

 

De Orações a um Deus Desconhecido, de Françoise M. (livro inédito)

data de publicação
07.04.2022
GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca