Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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vou deixar de falar de ti

vou deixar que o sabor do teu nome se dissipe

silabar sequer a tua ausência

vou morder até ao osso o teu vazio

calar-me deixar de te dizer

e vou

 

sulcar fundo desvio na lama

do meu peito

pisarás em mim outros baldios mas longe

já do coração

 

vou depois incendiar a tua imagem

extinguir a labareda vassourar com rigor

a tua cinza

e vou betumar o que era comarca tua

na memória

 

vou deixar de falar de ti

vou deixar de falar

 

 

 

 

 

 

in Ágil mesmo nu: um sobretudo nos trópicos (edições Macondo, 2021)

 

data de publicação
08.11.2022
gravação
Nuno Morão
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca