Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Folha de sala para Sargy Mann

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numerosa a luz que faz no lugar

do pintor cego

emboca pela janela do tacto empurrada pelo vento

sinuosa branca

e com as mãos o pintor modela-a compõe

aquilo

 

que não viu

e no entanto as mãos percorrem as alturas

todas

aqui uns joelhos as ancas mais ali

a cabeça de um corpo adentrado na memória

a lembrança do mar

ao fundo da varanda

 

a mulher guia-o pelos corredores do vento

ele guia a mulher pela certeza

escura de alguma evidência ou pelo isento

luzeiro que um ser pode

 

fecharam os reflexos aparentes

para um e para outro o clarão tornou coisa que atravessa

a retina do coração

a cor enrubesce numa acção decorada

no escuro

o que ontem foi manifesto hoje cai no principal

 

ao dizer azul

as células do azul encharcam a superfície do lago

o pintor vê aquém da recordação

e para lá do nutriente basilar da cor azul

cosida que está ao seu código

sensorial

o pintor reconhece a visão depurada do azul

a estrutura do azul

 

a paixão do visto cariou

uma ideia de visão se mistura e desfaz

no fluido do olhar-se

 

o pintor verte o que a visão não creu

expõe as variáveis brancuras da cegueira e do assombro

o corpo que já viu come desse comércio

mas ao corpo que cegou preenchem-no o oco

de outras formas

 

quem vir por fora estas pinturas é cego de as não

ver onde perduram:

 

diante do que em si é através

 

 

 

 

 

in Ágil mesmo nu: um sobretudo nos trópicos (edições Macondo, 2021)

data de publicação
10.11.2022
gravação
Nuno Morão
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca