Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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Miguel-Manso [compacto]

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Foi mais ou menos aleatória a escolha destes poemas ou, quanto muito, a mesma resulta da minha preferência por aqueles que oferecem, claro, menos engasgos na dicção . Todos constam da mais recente escolha-de-poemas-anteriormente-publicados, editada em 2021, no Brasil, pelas edições Macondo – a saber: Ágil mesmo nu: um sobretudo nos trópicos.

Não gosto particularmente de ler os meus poemas em voz alta, pelo muito tempo que lhes dediquei na oficina. Perderam muitos dos segredos que nos poemas d_s outr_s, pelo contrário, me impelem à leitura sonora. É-me ainda fastidioso declarar a origem de cada texto. A cada nova reunião de poemas me inclino para a omissão indolente das proveniências e para o esclarecimento das devidas sequências cronológicas. Pela mesma razão não o farei aqui, escudando-me tão-só no livrinho brasileiro. Tirando o contragosto que de mim para mim dispenso, a participação neste poemário radiofónico é motivo prazenteiro.

 

 

 

Miguel-Manso

data de publicação
21.11.2022
gravação
Nuno Morão
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca