Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Brasil-Tesão

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festa clubber

 

seis horas da manhã de domingo
estou no carro de um desconhecido
não há nada mais sobre
minhas pálpebras senão
um conceitual borrão rosa e preto
e a suspeita que minha vida
não ia nada bem

 

empresto a chave da minha casa
para um também desconhecido
cheirar ketamina
eu sabia que não era ele
o homem da minha vida
embora eu também seja
apaixonada por cavalos

 

homens casados que se parecem
com gays estilosos
gays de classe média alta
que se parecem com héteros
da quebrada
travestis belíssimas
seguram copos de gin tônica
andam feito cardume
tudo cheira magia
e baunilha
nos corpos das
donas da noite

 

 

Inédito

 

 

 

Brasil-Tesão

 

As cadelinhas transexuais da
zona centro norte
caminham cortando o ar
como uma manada raivosa

 

são máquinas de matar
máquinas de seduzir
cadelas intelectuais escrevendo
em seus diários
fogo na babilônia

 

com bic rosa,
peitos entumecidos,
raiva, brasil, tesão.

 

 

In meu corpo é um mapa de desobediência civil (selo Lola Frita – laboratório de publicação, 2022)

data de publicação
03.12.2022
gravação
Gal Freire
paisagens sonoras
Jo Mistinguett 
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca