Há postos para a poesia?

Rudimentos vocais

Aspirações orais

Há dias sonoros

Inquietações hertzianas

Ortografias abertas

Poesias ampliadas

Ondas magnéticas

Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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Falo diretamente do país que mais mata pessoas como eu e o que mais consome pornografias protagonizadas por nós. Parto do meu lugar de artista do corpo e digo que não é possível tirá-lo fora, o trabalho é enxergar a beleza de uma corporalidade que se autocria, a potência de um corpo que decide transmutar a carne pela força do desejo, andar no ritmo do anti-horário, ser o bug, enganar os algoritmos e as estáticas, ter o mantra “não morrer” em looping na cabeça e a certeza da beleza no corpo.

 

 

Que todas as transtornadas, malditas, preteridas, femininas, que todas nós gozemos da liberdade de escolha, e tenhamos maturidade para lidar com a violência da escolha, que nossos corpos encontrem a abundância, o amor incondicional, o prazer de habitar e corromper esta merda toda, este Brasil que nos assassina.

 

Falo como uma mulher que quer ser amada num país que me odeia, uma mulher que acredita em outros possíveis, em outras masculinidades, falo como alguém que não desistiu, e se os meus privilégios me impulsionaram até aqui, eu quero o giro de poder nessa guerra que vocês inventaram. Se as que vieram antes de mim me impulsionaram até aqui, eu quero estar aqui e agora junto com as minhas, vivas, ferozes e destrutivas, bonitas e letais.

Que nenhum homem medíocre esteja ao lado de uma mulher poderosa, que nenhum homem de terno tenha o poder de decisão sobre o nosso corpo ilegível, que as nossas vidas sejam legitimadas e narradas apenas por nós, que nenhuma migalha nos seja alimento, que tenhamos acesso a todos os espaços de poder para que possamos destruir todos os espaços de poder, todas as catequeses, as toxicidades e riscaremos com nossos saltos agulha mapas de desobediência e sobrevivência.

 

Todos os corpos que habitam a vulnerabilidade possuem superpoderes psicossociais de sobrevivência, a capacidade de criação de afeto no meio dos escombros deste projeto-catástrofe-brasil. Eu não escolhi o abismo, ele sempre esteve aqui, mas eu não saltarei sozinha, eu quero o pagamento de uma dívida irreparável.

 

 

In meu corpo é um mapa de desobediência civil (selo Lola Frita – laboratório de publicação, 2022)

data de publicação
04.12.2022
gravação
Gal Freire
paisagens sonoras
Jo Mistinguett
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca