Há postos para a poesia?

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Escavadas na garganta

Sintonias do tempo

In ti mi da de

Arte Memória Política Opinião

Fruição

Meditação

 

E tudo a postos para escutarmos os espíritos?

Amantes da poesia, camaradas ouvintes, coreógrafas da língua, encenadoras dos lábios

Prontas para afinarmos os espíritos?

Artesãs de palavras, operárias do texto, juristas das frases feitas e cuidadoras de ideias

Tudo a postos para sermos poesia?

Há postos para a poesia?

 

 

 

 

Raquel Lima

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prefiro ser égua
a ser deusa
manifesto primeiro da ternura
animal

 

as mulheres sao como os cavalos
os homens como as metralhadoras
a diferença estrutural do meu desejo
é indomável como meu sexo
meus cabelos
meu olho de quadrúpede
minha cintura de mamífera oca
ovelha clonada sem cabeça

 

não atire nos animais
as éguas são como a catinga
e os homens como os policiais
o corpo é a estrada
o cavalo o galope
a mulher que cavalga
mais mulher do que você é
homem
e só dançava porque na curva do vento
o movimento das palavras não recua
tenho mais medo de não escrever
do que de escrever
escrevo então porque a maré volta
agora com a ressaca do meu sangue
quente
unhas e cascos carcomidos em sua dureza
violenta a correnteza dos dias
dança macabra no meu quarto
envenena cada um dos
meus pulmões

 

olha bem isto é o meu corpo

 

não acredito em poeta que não dança
mas manteremos isto aqui frio e
sem armas de fogo como guerreavam
os astecas, os incas e os maias
e todas as mentiras sobre o amor
o sal, o insumo da guerra
devorando os caranguejos do mangue

 

compadecendo-se no fim
à devastadora enchente no sertão
implacável
como teu silêncio

 

entre a carcaça dos bois
dois ou três dos motivos e dívidas
o húmus da criação apodrecendo
no meio dos bichos e você ali
entre os dentes de um deles
resignado
como meu desejo

 

certas coisas só fazemos
quando perdemos o medo
da morte ou o apego à vida
e no entanto o meu martírio
não me santifica
não entrego o meu sangue
mas o corpo total

 

 

 

Inédito

data de publicação
02.12.2022
gravação
Gal Freire
paisagens sonoras
Jo Mistinguett 
masterização
Sérgio Milhano, PontoZurca