reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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chorar e foder

chorar e foder

e todas as palavras que escolhemos e levaram a isso

 

chorar e foder

assistindo o incêndio

chorar numa plataforma a salvo acima da água

entender que isto é pra sempre

foder numa banheira cheia de piolhos, um contêiner de agulhas

foder por perseverança, desespero

depois estar de novo embaixo do sol

 

chorar e foder pra respirar, enquanto o fôlego ainda combate

limpar de novo a areia que se acumulou nos olhos, carinhar

nossos heroicos pulmões

 

chover e dormir.

 

 

 

 

 

De você esqueceu uma coisa aqui (Macondo, 2019 e Enfermaria 6, 2020)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca