Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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queria fazer um poema de amor sem segundas intenções

sem intenções nenhumas (um poema de afeto)

um poema de amor com amor aos fatos, sem superlativos

mas perdi a capacidade em algum momento do caminho

 

você é um riachinho de carinho e silêncio

você é uma longa canoa de cabelos

você faz da terra um planeta mais difícil de destruir

você prepara o neocoletivismo com pés leves e pesados

você poderia ser um cavalo, se os cavalos soubessem ler

 

você consegue lamber seus próprios calcanhares

girar de ponta-cabeça no seu bambolê de ferro

e veio aqui mostrar que coisas complicadas são possíveis

você desenha as pessoas de máscara no metrô

enquanto o século 21 desaba e envelhece

 

sei que você não pode me proteger do pavor todos os dias

mas estar contigo me lembra que eu gosto de estar no mundo

só que já fazia tanto tempo que eu não gostava

que eu fico um tanto aflito e desorientado

 

fico aflito que você note como estou desorientado

o que só prova que eu ainda não entendi nada.

 

 

 

inédito

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca