reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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queria fazer um poema de amor sem segundas intenções

sem intenções nenhumas (um poema de afeto)

um poema de amor com amor aos fatos, sem superlativos

mas perdi a capacidade em algum momento do caminho

 

você é um riachinho de carinho e silêncio

você é uma longa canoa de cabelos

você faz da terra um planeta mais difícil de destruir

você prepara o neocoletivismo com pés leves e pesados

você poderia ser um cavalo, se os cavalos soubessem ler

 

você consegue lamber seus próprios calcanhares

girar de ponta-cabeça no seu bambolê de ferro

e veio aqui mostrar que coisas complicadas são possíveis

você desenha as pessoas de máscara no metrô

enquanto o século 21 desaba e envelhece

 

sei que você não pode me proteger do pavor todos os dias

mas estar contigo me lembra que eu gosto de estar no mundo

só que já fazia tanto tempo que eu não gostava

que eu fico um tanto aflito e desorientado

 

fico aflito que você note como estou desorientado

o que só prova que eu ainda não entendi nada.

 

 

 

inédito

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca