reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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Rafael Mantovani [compacto]

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A escolha destes poemas foi inspirada em certos versos de Marianne Moore: “a esperança só é esperança / quando não há mais motivo / para esperança”*. Ou então em outros de Vladimir Maiakóvski: “É preciso / arrancar alegria / ao futuro”**.

Se viver neste mundo é cada vez mais difícil; se as perspectivas são sombrias; se a violência, o autoritarismo e a injustiça vão ganhando terrenos que considerávamos seguros; se as notícias chegam como rolos compressores e não sabemos bem se lutar ou correr; se a selva da incerteza vai reduzindo as clareiras do nosso quotidiano; enfim, se estamos numa crise permanente e crescente, surge uma categoria especial de perguntas (que aliás já tinham surgido antes):

O que ainda vale a pena esperar? O que vale a pena, de modo geral? Qual o lugar da alegria e do prazer no horizonte encoberto pelo medo? E há um lugar para a alegria na luta política? Onde ficam os sonhos, quando a realidade não deixa muita margem de manobra?  E é sequer permissível ter alguma felicidade sem culpa, em meio à miséria que se alastra? Alegria é escapismo ou é parte da razão para continuar tentando?

Essas perguntas estão em volta dos poemas que escolhi. Alguns deles são do meu livro você esqueceu uma coisa aqui (2019), outros são mais novos. São questões que sempre me obcecaram mas que, com a água do colapso mundial subindo a cada semana, ficam mais presentes e urgentes. Isso se acreditarmos que a poesia também pode ser uma bússola (ou uma arma? um conforto? uma boia de salvação? uma espaçonave?) em meio a isso tudo. O que quer que se chame de “isso tudo”.

 

* “O herói”, tradução livre minha.

** “A Sierguéi Iessiênin”, tradução de Augusto e Haroldo de Campos

 

 

 

 

Rafael Mantovani

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca