reservar espaço para a sombra

reservar espaço para a sombra

criar aos cacos uma

geografia quase inacessível

se reservar o direito

ao recolhimento

produzir cavidade

no interior da

palavra para

que nela também

resida

o que não se diz

em frente ao inimigo

entregar o discurso

inacabado
ocupar o fundo

de um espaço onde

a ordem que rege

não anseia testar os

limites do exotismo

de uma bicha-que-fala

de uma bicha-que-pensa

apesar de tudo

fabricar o corpo

onde não te alcancem

os olhos da máquina

de morte

ter tempo para se formular

quando não se está

destinado a ser

una cosa muy rara e só

se permitir uma narrativa

destroçada destinada a

ser falha e ruína

avolumando

falha e ruína

habitar o mistério

quando a ti ele é

negado

– especialmente aí

ser o mistério

 

 

 

De AMÉRICA (URUTAU, 2020)

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sempre penso em te escrever quando não tenho tempo

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sempre penso em te escrever quando não tenho tempo

quando estou no meio da aula de pilates

recebendo as endorfinas e decido que vou te escrever quando chegar em casa

depois no banho estou pensando no que exatamente vou te escrever

quando tiver as mãos secas

nos emojis geniais que vou colocar no fim das frases

que vão expressar o sentimento sem recorrer a palavras

ponho a roupa pensando em como vai ser mágico

te escrever finalmente depois do jantar

como vai ser libertador e você vai me perdoar por não ter escrito antes

e revelar que nem estava bravo comigo afinal

porque você compreende

 

sempre penso em te escrever enquanto estou comendo

a gelatina com calorias reduzidas

enquanto fumo e a comida gira e gira no meu estômago

penso em te escrever exatamente enquanto abro o netflix

ao longo do episódio penso em como vai ser fácil e espontânea

a nossa conversa, em como

você vai ao mesmo tempo rir das minhas falas e ficar com vontade

de me morder e pôr a mão na minha bunda

quando aparecem os créditos sinto a agulhada do pânico, ando

(tem o formato aproximado de uma agulha de tricô) até a cozinha

pra lavar uns pratos, dobrar a roupa que secou

penso em como vou estar bombando de vitalidade pra te escrever amanhã

amanhã assim que não tiver aquele trabalho não entregue

e vou escrever não sobre como meu trabalho é chato e repetitivo

mas coisas tão inesperadas que você nem vai acreditar que está lendo

nem eu

 

oh como sou bom em pensar em te escrever

enquanto estou fazendo qualquer outra coisa

eu poderia viver disso, fazer isso profissionalmente e de jeitos completamente inovadores

e a humanidade depois escreveria livros sobre mim

sobre como foi genuína a minha vida e obra de pensar em te escrever

penso em você lentamente lendo esses livros, no metrô de uma cidade interminável

estou esticado na cama olhando pro lustre

tem uma mariposa procurando algo dentro dele

ouço os carros que desenham sombras quadradas no teto, vejo

uma escada rolante, um porta-aviões, um castelo.

 

 

 

 

De revista online Stadtsprachen (2021)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca