Miguel Cardoso [compacto]

Os poemas escolhidos atravessam vários dos meus livros, onde muitos deles integravam sequências mais longas, a que foram arrancados. Ao dar-lhes esta nova morada precária, procurei fios ou ecos que formassem uma nova sequência, tendo como mote a ideia de travessia: como abrir caminho – no espaço, mas, mais ainda, no tempo? Entre outras coisas, estes poemas tratam do que o ontem nos deixou, da engrenagem das horas, do emprego dos dias, de avanços e recuos, de regressos e reveses, de parêntesis e promessas, da incerta antecipação de amanhãs. Os versos encadeiam-se e, ao mesmo tempo, hesitam, engasgam-se, saltam como agulha num disco descontínuo. Não é, portanto, apenas um encadeamento de poemas, mas uma sequência de poemas sobre o próprio processo de encadear, que vejo como um dos problemas centrais da poesia. Mesmo se o poema se esquece disso, a sua passagem à voz recorda-o: vê-se forçada a atravessar um terreno acidentado, a negociar a difícil passagem de um verso para o seguinte. Como os poemas, os dias.

 

Miguel Cardoso

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sempre penso em te escrever quando não tenho tempo

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sempre penso em te escrever quando não tenho tempo

quando estou no meio da aula de pilates

recebendo as endorfinas e decido que vou te escrever quando chegar em casa

depois no banho estou pensando no que exatamente vou te escrever

quando tiver as mãos secas

nos emojis geniais que vou colocar no fim das frases

que vão expressar o sentimento sem recorrer a palavras

ponho a roupa pensando em como vai ser mágico

te escrever finalmente depois do jantar

como vai ser libertador e você vai me perdoar por não ter escrito antes

e revelar que nem estava bravo comigo afinal

porque você compreende

 

sempre penso em te escrever enquanto estou comendo

a gelatina com calorias reduzidas

enquanto fumo e a comida gira e gira no meu estômago

penso em te escrever exatamente enquanto abro o netflix

ao longo do episódio penso em como vai ser fácil e espontânea

a nossa conversa, em como

você vai ao mesmo tempo rir das minhas falas e ficar com vontade

de me morder e pôr a mão na minha bunda

quando aparecem os créditos sinto a agulhada do pânico, ando

(tem o formato aproximado de uma agulha de tricô) até a cozinha

pra lavar uns pratos, dobrar a roupa que secou

penso em como vou estar bombando de vitalidade pra te escrever amanhã

amanhã assim que não tiver aquele trabalho não entregue

e vou escrever não sobre como meu trabalho é chato e repetitivo

mas coisas tão inesperadas que você nem vai acreditar que está lendo

nem eu

 

oh como sou bom em pensar em te escrever

enquanto estou fazendo qualquer outra coisa

eu poderia viver disso, fazer isso profissionalmente e de jeitos completamente inovadores

e a humanidade depois escreveria livros sobre mim

sobre como foi genuína a minha vida e obra de pensar em te escrever

penso em você lentamente lendo esses livros, no metrô de uma cidade interminável

estou esticado na cama olhando pro lustre

tem uma mariposa procurando algo dentro dele

ouço os carros que desenham sombras quadradas no teto, vejo

uma escada rolante, um porta-aviões, um castelo.

 

 

 

 

De revista online Stadtsprachen (2021)

GRAVAÇÃO E EDIÇÃO ÁUDIO
Oriana Alves
masterização
Pedro Baptista, PontoZurca